A madrugada foi fria noite passada, mais uma vez uma sequência escura de meio-pesadelos-meio-sonhos em que você estava lá diante de mim. Já se passaram 1.157 noites desde a primeira vez que sempre que você aparece no meu subconsciente durante o sono, eu não acordo feliz com aquele sorriso de antes. Durante todas essas noites, sem exceção, eu te vejo lá como protagonista do meu sonhar, seja quando você heroicamente volta para dizer aquelas “verdades não ditas” e que ainda pode me salvar, se eu não conseguir, e às vezes eu sou quem chega pra te salvar de uma das suas crises, mas convenhamos, você nunca precisou ser salva por ninguém que não você mesmo ou outra parte que também vem de ti – outras vezes você vem me atormentar e me dizer que eu nunca fui pra você o que você foi pra mim, e me mostrar tudo que eu fiz de errado e as coisas que ainda faço e sou, ainda que eu tente negar a mim, a você e ao mundo.
Algumas vezes eu acordo no meio da madrugada sufocado por uma corda que eu mesmo posicionei na minha traqueia, mas uma parte de mim erroneamente insiste em te acusar. E as vezes estou disposto a puxar o gatilho preso à minha cabeça, mas eu sei que eu e você somos extremamente contra aqueles que portam os gatilhos, certo? Então nesse caso eu simplesmente tento dormir, me reviro na cama procurando seu corpo para me abraçar e me encho com o nada até o sol nascer e eu vestir a fantasia de felicidade e torcer para que um dia eu me esqueça de que se trata de um devaneio. Mas para ser sincero, algumas vezes acordo energizado como se você tivesse de fato estado ali, por cerca de duas a seis horas (vai saber como funciona o tempo no mundo dos sonhos), e ao longo do dia o sorriso vai gradativamente dando lugar a um choque de realidade, e pasmem, não é que você não está aqui? E não esteve nas últimas 1.157 noites em que eu precisei de você. Assim como eu não estive com você também nos últimos meses que a gente podia se encostar e se falar assuntos cotidianos, e agora são conversas de 20 minutos como desconhecidos que compartilham apenas uma coisa em comum, que ambos desejamos no fundo que não existisse mais essa ligação. Talvez mais você do que eu, devo confessar.
Apenas gostaria de poder te dizer tudo isso que eu registro nesse texto que eu não espero ser lido por ninguém, muito menos por você, assim como as entrelinhas, as profundidades e banalidades de tudo que eu quis te contar em cada minuto de cada hora de cada dia de cada mês de cada ano desde que você se foi de verdade. Ainda que eu saiba que estou condenado a uma vida vivida sem a felicidade que eu só posso encontrar em você, eu espero sinceramente que sua decisão a tenha feito feliz, e que continue sempre forte e feliz como desejou. Na minha concepção, o amor da nossa vida só se encontra uma vez, e você foi o meu. Espero que encontre ou tenha encontrado o seu, nem que seja em si mesma. E do fundo do coração, é isso que conecta todos os meus meio-sonhos-meio-pesadelos que tenho tido todas essas noites, sem exceção. O desejo e esperança de que você seja a pessoa mais feliz do mundo, porque esse é o único conforto que eu poderia ter nesse mundo tão estranho.
