Aquele relógio na parede da sala continua quebrado desde que mudei, desde que me mudaram.
Fica marcando a hora exata em que a nuvem escura invadiu meu lar e me deixou sem ar.
Aquele cigarro apagado na metade continua no meu cinzeiro, marcado com a cor do batom que usava, a única coisa que se destaca na sacada tão monocromática.
Nossas falhas nunca abandonam e desenham toda a mobília da sala, sempre tão assombrada, vazia, exceto pelos fantasmas e pela marca do seu copo na madeira da estante.
O relógio quebrado na sala me lembra quando a queda chegou, e do instante em que comecei a gritar.
E nunca mais fui capaz de parar.
Será que vou voltar… a viver?
Hoje pensei em ligar, mês passado quis reescrever, cheguei a pensar em me mudar pra não regar mais aquela planta que sobreviveu ao furacão, e fingir que esqueci de lembrar.
Ontem eu nem consegui dormir, fiquei tentando prever quando isso ia passar.
Ontem eu nem consegui dormir, encarando, de hora em hora, o relógio que se recusa a andar.
Quem é que vai poder me ajudar… a consertar? a renovar?
Seria fácil apagar tudo desarmar o interruptor desligar o meu corpo, analgésico para a dor
E lá vêm eles com suas lições: “O segredo está no que digo…” “Deveria voltar a estudar”
Mas lá vêm eles sobre minhas canções, os que me ensinam como viver do outro lado das suas telas, os que não saberiam viver caso seus smartphones morressem
Mas eles fingem que sabem de mim e eu grito quando sei nada de mim Me dê um tempo, deixe o cigarro terminar
Eles pensam que sabem bem quem sou como se vivessem minha vida por mim tomassem os meus comprimidos, usassem os meus tarja pretas Então não me digam quando parar
Eu já até prometi parar de fumar mais vezes do que pude contar Eu tentei e parei Eu voltei e fiquei
Mas sabem mais de mim do que eu: “Vê se dorme mais cedo” “Faça procedimento estético”
Eu já menti pra vocês se calarem Me dê um momento pra eu poder pensar em como eu escolhi ser em como decidi viver assim
São tantos tentando me salvar, mas ninguém disposto a ficar às três da manhã neste bar (ou em um quarto de hotel) quando tudo que preciso é conversar
Quando quero falar do meu dia e por onde vou estar pela manhã meus planos, mesmo distantes meus sonhos, entediantes
Quando acendo a luz só vejo um quarto bagunçado meu violão desafinado e seu travesseiro desocupado
Eu não fumaria todas as minhas besteiras os comprimidos ficariam na gaveta
Se fosse fácil apagar tudo, desarmar esse interruptor, transcender o meu corpo, anestesiar a dor
Eu prefiro viver com os espinhos que perfuram as camadas da pele, e me sentir rasgar a carne, nos restos de garrafas quebradas que a gente deixou no meu quarto
Estilhaços de vidro espalhados pelo chão há quase uma década como se ninguém morasse aqui
Meus vizinhos me encaram no corredor como quem enxerga minha alma oculta julgando aquela nuvem cinzenta que me segue onde quer que eu vá
Eu prefiro viver a ressaca mesmo sem ter tido bebedeira, e as dores de cabeça que vêm junto com a culpa por algo que desconheço.
Ou conheço?
A anestesia vai ceifar o vampiro e vai me tornar apático, simpático, sem vida.
Será que o vampiro realmente sou eu?
O formigamento vai silenciar as vozes e vai deixar tudo sem cor, tão cinza, sem poesia.
Será que o monstro vive em mim?
Eu não quero mais assistir esse filme já decorei o roteiro. perdeu toda a graça.
Eu não quero mais assistir esse filme já decorei o roteiro. e sei o exato momento em que vai dar errado.
Funcional, mas tão vazio.
Estável, com tanta ausência.
Eu quero ter o poder de escrever o final, de matar e morrer, de decidir viver.
Eu quero acima de tudo, escolher, o sabor do veneno, quando tomar, ou de que forma partir.
Eu vivo sozinho e não sei viver só.
Eu vivo procurando e depois descartando.
Eu queria que fosse eu mesmo o autor a redigir o meu texto, e ser eu a escrever as minhas próprias palavras.
eu não escrevi esse texto eu só encontrei ele aqui.
entre uma coletânea de prints antigos e um silêncio que eu não lembro de ter feito mas que continuam ali, pra provar que existiu
entre os arquivos corrompidos de fotografias e aquele e-mail que você me mandou que continua fixado, pra eu lembrar que existiu
dizem que foi amor
o legista não soube confirmar “temperatura inconsistente” ausência de sinais claros de ruptura
mas eu lembro eu juro que lembro ainda estava quente
só que aconteceu aos poucos como tudo que a gente não percebe enquanto ainda está envolvido em processo de negação
nunca teve grito jamais uma porta batendo não teve nada escrito pra parte final
teve rotina teve “boa noite” teve o último plano de domingo
Ah, esse último plano de domingo…
e em algum lugar entre um abraço e outro alguma coisa parou
sem avisar
eu procurei sinais
revirei mensagens li tudo de novo mais de cem vezes tentei encontrar o momento exato em que deixou de ser
não encontrei continuo fingindo não ver
finais inacabados não acabam nunca parecem o mesmo pesadelo noite após noite há quase uma década
somos só versões melhores do que já não existe mais
Me estranha tanto
porque tudo ainda parece intacto quando eu olho de longe
como uma casa montada com luz acesa mas sem ninguém dentro
e eu fico na porta sem saber se fui embora ou se nunca mais voltei
às vezes eu penso que ainda está acontecendo
em algum lugar específico do tempo onde ela ainda ri pra mim onde a gente ainda se encaixa onde dormir não exige esforço
mas não é aqui
aqui só sobrou o depois e só tem um de nós dois
me disseram pra seguir
como se fosse uma via como se houvesse direção mas paralisei-me no mesmo ponto enquanto tudo em volta continua andando
Anos, anos e mais anos
Pessoas, depressão, e autodestruição em looping
Solidão, renascimento e negação dos fatos
eu não sei explicar
como algo tão inteiro vira lembrança sem passar por quebra
como alguém deixa de existir na sua rotina mas continua ocupando espaço dentro do peito anos, anos e mais anos quilômetros e versões minhas que você nunca vai conhecer
não foi falta de amor
isso eu consigo afirmar não só por mim, mas por você
foi outra coisa que eu ainda não sei nomear e talvez nunca saiba
eu tentei transformar isso em texto pra ver se virava explicação não virou…
continua sendo só um registro mal feito de algo que não pediu pra ser entendido
então eu deixo assim
incompleto como tudo que foi importante o suficiente pra não caber em fim
e se alguém perguntar: eu nego digo que não escrevi
porque aceitar que fui eu é admitir que ainda tem alguma coisa viva aqui
e eu não sei o que fazer com isso horário da morte: inconclusivo eu só enxerguei tarde demais
Ficava claro por alguns segundos E em seguida, escuridão.
Eu sentia meu corpo se debater Mas eu não tinha forças pra desfazer Meus pés não alcançavam o chão Eu não tinha mais voz pra gritar
Então é assim que termina? Então esse é o preço que se paga pelas escolhas que eu fiz?
Deus, me perdoe, pelos meus pecados Deus, me perdoe, por tudo que fiz Deus, me perdoe, pelos meus pecados Deus, me perdoe…
A dormência já possuiu meu corpo cansado Mas a cacofonia não parou até o último suspiro Ela se contradizia no final: Dizia pra desistir – mas o sentido era outro.
Desistir De desistir
Parece que é tudo que eu faço Desistir e desistir Até o último momento.
Quem dera eu soubesse antes Quem dera alguém pudesse me ouvir
Quem dera eu tivesse pensando a quem chamar Quem pudesse vir me salvar
Mas tudo que resta agora São de três a seis minutos pra me arrepender São de três a seis minutos para rever
Queria que alguém tivesse me falado Que não é a solução Em vez de todo silêncio Em vez da habituação
A gente só enxerga quando a luz nos cega
Não ouvimos Até que os gritos sejam altos o suficiente Pra nos fazer parar – e ensurdecer
E não sentimos Até a vida nos atropelar.
Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?
Quem dera eu soubesse disso momentos atrás.
Será que isso é tudo? Eu deveria ter pensado nisso antes de subir.
Mas agora o alívio se tornou arrependimento Eu não quero mais. Eu quero viver.
Mas a gravidade faz o que sempre faz.
O que eu desejei no início agora eu queria desfazer.
Não, eu não quero! Eu não quero ter que pagar o preço Da vista do meio pra baixo.
O preço que se paga do meio pra baixo É só conseguir entender Quando já é tarde demais.
Algumas memórias não mudam. Mas a forma como voltamos a elas muda.
A referência vem de uma cena de Breaking Bad em que Jane Margolis comenta que, ao observar por muito tempo as pinturas de Georgia O’Keeffe, você começa a perceber coisas diferentes. Não porque a obra mudou — mas porque quem olha já não é o mesmo.
Por isso a mesma imagem aparece repetida.
É sempre a mesma “pintura”, mas atravessada por estados diferentes: refúgio, conexão, nostalgia, culpa e memória.
Algumas experiências acabam assim. Elas não passam totalmente.
Só ficam ali, como um quadro no museu, esperando o momento em que alguém — talvez você mesmo — volte para olhar de novo.