Suicídio às Avessas

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Acorda mais cedo e vem me encontrar.
Coloca o casaco, o inverno virá.
Leu minha mensagem?
Entendeu a instrução?

Desamassa a cara, pois vamos conversar.
Nem me pergunte aonde isso vai dar.
Chegou a hora de despedir,
me ajude a não resistir.

Eu quero morrer de vez
se for pra eu renascer
em um novo corpo,
sem nenhuma cicatriz.

Eu quero matar em mim
o que me faz insistir
na mesma casa,
na mesma cor de luz.

Não volta pra tua casa até terminar.
Tem coisas que o tempo devia apagar.
Vem logo me exorcizar,
vem me tirar daqui.

Eu quero morrer de vez
se for pra eu renascer
com outro coração,
sem essa escuridão.

Eu quero matar em mim
o que me faz insistir
em assistir ao mesmo filme
e à mesma cena.

E desejar mudar
aquele final,
sem ter nenhum poder.
Eu já posso prever.

Não existe retorno mais cabal
do que me deixar esquecer,
mesmo que eu queira dizer não,
mesmo que eu peça pra ficar.

Não há amor maior
do que deixar isso partir,
nem que me faça sangrar,
nem que vá me destruir.

Dorme mais cedo, vamos nos despedir.
Coloca um sapato, pra poder fugir.
Vem fazer meu parto?
Vem me batizar?

Preciso morrer
pra começar a viver.

(02/04/2026)

O Gelo

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A cada passo que eu dou
Me sinto mais longe de chegar
E esse corredor parece não ter fim
Eu tô cansado de tentar enxergar

Um recomeço depois de tanto caos
Esfrego os olhos pro borrão passar
Finjo que não sei
Tento me enganar

Todo dia uma nova gota
E eu aqui parado esperando
O copo transbordar
Até quando isso vai sustentar?

Fechei a porta
Pro frio não entrar
Perdi a chave
Deixei a luz se apagar

Falta um grão de areia
Pra desmoronar
Eu finjo que não vejo
Mas sei que não vai sarar

Na ida, marquei o caminho
Pra ser mais fácil de voltar
Mas a chuva veio
E eu nem quis olhar

Recalcularemos a rota
Destino é impossível de chegar
Pra onde é que eu vou?
Quem vai me acompanhar?

(31/03/2026)

Fadiga (Déjà Vu)

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Seis meses do lado de dentro
Me faz mal a luz, mesmo refletida da lua

Senti cheiro de poeira ao me preparar
Precisava me expor, provar o que já vivi

São tantas luzes e cores,
Em um novo endereço,
Mas os mesmos rostos,
As mesmas vozes,
Até as poses,
Parecia meu próprio passado

Uma nova embalagem
Pra um produto vencido
Com defeito de fábrica

Mais um anúncio
Pra um filme repetido
Com roteiro previsível,
Preguiçoso,
Esgotado

Pessoas se aglomeram na multidão,
Mas nem toda maquiagem vai cobrir
A exaustão impressa na face,
O mesmo disfarce no olhar

Mas eu consigo enxergar,
Porque também me sinto um zumbi

Pego mais uma bebida,
Procuro onde me acalmar

Saio e acendo um cigarro,
Não sei se quero ficar

Retorno ao centro do baile,
Observo o mundo rodar,
Enquanto me vejo estático,
Nenhuma emoção pra anotar

Pego mais uma bebida,
Pra evitar conversar

Saio e acendo um cigarro,
Quem tô querendo enganar?

Eis que ocorreu aquele momento
Que foi tão difícil de digerir
Foi uma das vozes antigas
Que me fez enxergar
Tão claramente

No meio de toda bagunça,
Eu me abaixo e pergunto:
“Pra você também é tudo sem graça?
Nada mais tem valor?”

No meio da pista,
Ela só acena que sim
Não é nossa essa valsa,
Perdemos o compasso

E a gente nunca aprendeu a dançar

Então eu volto pro quarto
Pra ficar de vez por aqui

Mas aquelas meias respostas ecoam
Com minha própria voz indagando:
O que te faz acordar?

(25/03/2026)

El Mundo

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Às vezes, o custo de ser capaz
de absorver o conceito das abstrações
e depois digeri-las em emoções
é um preço alto para qualquer um.

Eu queria tanto ter podido salvar
alguém que eu nem conheci,
mas senti profundamente
quando descobri que o mundo deixou partir.

Eu te li no jornal
e imediatamente senti
a sua dor,
a sua angústia.
Eu já estive naquele lugar.

Ontem, demorei a dormir;
não pude parar de pensar
em quantas almas deixamos de salvar,
em quantos corações não vão mais bater.

Eu sonhei com o que vi na TV:
“Prefiero desaparecer”.

Não aguentei o calor,
a boca seca, os questionamentos.

O que fazer para evitar pensar tanto?
Como poderia evitar?

Essa escolha,
o que a levou a tomá-la,
e quem te acompanhou no processo?

Por favor, pense mais:
há tanto que ainda se pode fazer.

O mundo sempre foi seu lugar,
mas você preferiu desaparecer.

Desliguei minha TV,
e a interferência não parava.
Mesmo com o rádio desligado,
eu podia ouvir o ruído interno.

Será que eu seria capaz
de te ajudar,
de te proteger,
de desfazer?

Mesmo aqui, tão de longe,
um oceano inteiro de distância,
queria tirar sua dor
e dizer que tudo iria passar.

Mesmo em outra estação,
em um fuso horário diferente,
só queria que soubesse
da lágrima que caiu por você.

Mesmo com o mundo em silêncio,
a sua dor ecoa em mim.

(28/03/2026)

Do meio pro fim

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Aquele relógio na parede da sala
continua quebrado desde que mudei,
desde que me mudaram.

Fica marcando a hora exata
em que a nuvem escura invadiu meu lar
e me deixou sem ar.

Aquele cigarro apagado na metade
continua no meu cinzeiro,
marcado com a cor do batom que usava,
a única coisa que se destaca
na sacada tão monocromática.

Nossas falhas nunca abandonam
e desenham toda a mobília da sala,
sempre tão assombrada,
vazia, exceto pelos fantasmas
e pela marca do seu copo
na madeira da estante.

O relógio quebrado na sala
me lembra quando a queda chegou,
e do instante em que comecei a gritar.

E nunca mais fui capaz
de parar.

Será que vou voltar…
a viver?

Hoje pensei em ligar,
mês passado quis reescrever,
cheguei a pensar em me mudar
pra não regar mais aquela planta
que sobreviveu ao furacão,
e fingir que esqueci de lembrar.

Ontem eu nem consegui dormir,
fiquei tentando prever
quando isso ia passar.

Ontem eu nem consegui dormir,
encarando, de hora em hora, o relógio
que se recusa a andar.

Quem é que vai poder me ajudar…
a consertar?
a renovar?

Ou eu também parei…
com tudo aquilo que ficou

Será que vou voltar…
a viver?

(26/03/2026)

Carta de Março (A/C: Desinteressados)

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Seria fácil apagar tudo
desarmar o interruptor
desligar o meu corpo,
analgésico para a dor

E lá vêm eles com suas lições:
“O segredo está no que digo…”
“Deveria voltar a estudar”

Mas lá vêm eles sobre minhas canções,
os que me ensinam como viver
do outro lado das suas telas,
os que não saberiam viver
caso seus smartphones morressem

Mas eles fingem que sabem de mim
e eu grito quando sei nada de mim
Me dê um tempo,
deixe o cigarro terminar

Eles pensam que sabem bem quem sou
como se vivessem minha vida por mim
tomassem os meus comprimidos,
usassem os meus tarja pretas
Então não me digam quando parar

Eu já até prometi parar de fumar
mais vezes do que pude contar
Eu tentei e parei
Eu voltei e fiquei

Mas sabem mais de mim do que eu:
“Vê se dorme mais cedo”
“Faça procedimento estético”

Eu já menti pra vocês se calarem
Me dê um momento pra eu poder pensar
em como eu escolhi ser
em como decidi viver assim

São tantos tentando me salvar,
mas ninguém disposto a ficar
às três da manhã neste bar
(ou em um quarto de hotel)
quando tudo que preciso é conversar

Quando quero falar do meu dia
e por onde vou estar pela manhã
meus planos, mesmo distantes
meus sonhos, entediantes

Quando acendo a luz
só vejo um quarto bagunçado
meu violão desafinado
e seu travesseiro desocupado

Eu não fumaria todas as minhas besteiras
os comprimidos ficariam na gaveta

Se fosse fácil apagar tudo,
desarmar esse interruptor,
transcender o meu corpo,
anestesiar a dor

(19/03/2026 – 05:19)

Carta de Adeus

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Eu prefiro viver com os espinhos
que perfuram as camadas da pele,
e me sentir rasgar a carne,
nos restos de garrafas quebradas
que a gente deixou no meu quarto

Estilhaços de vidro
espalhados pelo chão
há quase uma década
como se ninguém morasse aqui

Meus vizinhos me encaram no corredor
como quem enxerga minha alma oculta
julgando aquela nuvem cinzenta
que me segue onde quer que eu vá

Eu prefiro viver a ressaca
mesmo sem ter tido bebedeira,
e as dores de cabeça
que vêm junto com a culpa
por algo que desconheço.

Ou conheço?

A anestesia vai ceifar o vampiro
e vai me tornar apático,
simpático,
sem vida.

Será que o vampiro realmente sou eu?

O formigamento vai silenciar as vozes
e vai deixar tudo sem cor,
tão cinza,
sem poesia.

Será que o monstro vive em mim?

Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
perdeu toda a graça.

Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
e sei o exato momento em que vai dar errado.

Funcional,
mas tão vazio.

Estável,
com tanta ausência.

Eu quero ter o poder
de escrever o final,
de matar e morrer,
de decidir viver.

Eu quero acima de tudo,
escolher,
o sabor do veneno,
quando tomar,
ou de que forma partir.

Eu vivo sozinho
e não sei viver só.

Eu vivo procurando
e depois descartando.

Eu queria que fosse eu mesmo o autor
a redigir o meu texto,
e ser eu a escrever
as minhas próprias palavras.

A minha carta de adeus.

(19/03/2026)

Laudo Necroscópico (monomania)

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eu não escrevi esse texto
eu só encontrei ele aqui.

entre uma coletânea de prints antigos
e um silêncio que eu não lembro de ter feito
mas que continuam ali, pra provar que existiu

entre os arquivos corrompidos de fotografias
e aquele e-mail que você me mandou
que continua fixado, pra eu lembrar que existiu

dizem que foi amor

o legista não soube confirmar
“temperatura inconsistente”
ausência de sinais claros de ruptura

mas eu lembro
eu juro que lembro
ainda estava quente

só que aconteceu
aos poucos
como tudo que a gente não percebe enquanto ainda está envolvido
em processo de negação

nunca teve grito
jamais uma porta batendo
não teve nada escrito pra parte final

teve rotina
teve “boa noite”
teve o último plano de domingo

Ah, esse último plano de domingo…

e em algum lugar entre um abraço e outro
alguma coisa parou

sem avisar

eu procurei sinais

revirei mensagens
li tudo de novo mais de cem vezes
tentei encontrar o momento exato em que deixou de ser

não encontrei
continuo fingindo não ver

finais inacabados
não acabam nunca
parecem o mesmo pesadelo
noite após noite
há quase uma década

somos só versões melhores do que já não existe mais

Me estranha tanto

porque tudo ainda parece intacto quando eu olho de longe

como uma casa montada
com luz acesa
mas sem ninguém dentro

e eu fico na porta
sem saber se fui embora
ou se nunca mais voltei

às vezes eu penso que ainda está acontecendo

em algum lugar específico do tempo
onde ela ainda ri pra mim
onde a gente ainda se encaixa
onde dormir não exige esforço

mas não é aqui

aqui só sobrou o depois
e só tem um de nós dois

me disseram pra seguir

como se fosse uma via
como se houvesse direção
mas paralisei-me no mesmo ponto
enquanto tudo em volta continua andando

Anos, anos e mais anos

Pessoas,
depressão,
e autodestruição em looping

Solidão,
renascimento
e negação dos fatos

eu não sei explicar

como algo tão inteiro
vira lembrança sem passar por quebra

como alguém deixa de existir na sua rotina
mas continua ocupando espaço dentro do peito
anos, anos e mais anos
quilômetros
e versões minhas que você nunca vai conhecer

não foi falta de amor

isso eu consigo afirmar
não só por mim, mas por você

foi outra coisa
que eu ainda não sei nomear
e talvez nunca saiba

eu tentei transformar isso em texto
pra ver se virava explicação
não virou…

continua sendo só um registro mal feito
de algo que não pediu pra ser entendido

então eu deixo assim

incompleto
como tudo que foi importante o suficiente pra não caber em fim

e se alguém perguntar:
eu nego
digo que não escrevi

porque aceitar que fui eu
é admitir que ainda tem alguma coisa viva aqui

e eu não sei o que fazer com isso
horário da morte: inconclusivo
eu só enxerguei tarde demais

(17/03/2026 — 02:07)

A Gravidade é uma Puta

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Ficava claro por alguns segundos
E em seguida, escuridão.

Eu sentia meu corpo se debater
Mas eu não tinha forças pra desfazer
Meus pés não alcançavam o chão
Eu não tinha mais voz pra gritar

Então é assim que termina?
Então esse é o preço que se paga
pelas escolhas que eu fiz?

Deus, me perdoe, pelos meus pecados
Deus, me perdoe, por tudo que fiz
Deus, me perdoe, pelos meus pecados
Deus, me perdoe…

A dormência já possuiu meu corpo cansado
Mas a cacofonia não parou até o último suspiro
Ela se contradizia no final:
Dizia pra desistir – mas o sentido era outro.

Desistir
De desistir

Parece que é tudo que eu faço
Desistir e desistir
Até o último momento.

Quem dera eu soubesse antes
Quem dera alguém pudesse me ouvir

Quem dera eu tivesse pensando a quem chamar
Quem pudesse vir me salvar

Mas tudo que resta agora
São de três a seis minutos pra me arrepender
São de três a seis minutos para rever

Queria que alguém tivesse me falado
Que não é a solução
Em vez de todo silêncio
Em vez da habituação

A gente só enxerga quando a luz nos cega

Não ouvimos
Até que os gritos sejam altos o suficiente
Pra nos fazer parar – e ensurdecer

E não sentimos
Até a vida nos atropelar.

Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?

Quem dera eu soubesse disso momentos atrás.

Será que isso é tudo?
Eu deveria ter pensado nisso
antes de subir.

Mas agora o alívio se tornou arrependimento
Eu não quero mais.
Eu quero viver.

Mas a gravidade faz
o que sempre faz.

O que eu desejei no início
agora eu queria desfazer.

Não, eu não quero!
Eu não quero ter que pagar o preço
Da vista do meio pra baixo.

O preço que se paga do meio pra baixo
É só conseguir entender
Quando já é tarde demais.

Me desculpem por ser sempre assim.

(13/03/2026 – 03:49)

Jesse, Jane and Georgia O’Keeffe

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Algumas memórias não mudam.
Mas a forma como voltamos a elas muda.

A referência vem de uma cena de Breaking Bad em que Jane Margolis comenta que, ao observar por muito tempo as pinturas de Georgia O’Keeffe, você começa a perceber coisas diferentes.
Não porque a obra mudou — mas porque quem olha já não é o mesmo.

Por isso a mesma imagem aparece repetida.

É sempre a mesma “pintura”, mas atravessada por estados diferentes: refúgio, conexão, nostalgia, culpa e memória.

Algumas experiências acabam assim.
Elas não passam totalmente.

Só ficam ali, como um quadro no museu, esperando o momento em que alguém — talvez você mesmo — volte para olhar de novo.