A Maldição das Baratas

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A arte é sobrevida
daqueles sem vida.

Objetivos, metas e rotas.
Rupturas, obstáculos e inimizades.

O amor que havia ali
não existe mais.

Não existe procura
ou algo a encontrar.

Só o piloto automático
jamais desativado.

O prazer é utopia
sem ninguém perceber.

O caminho não se perde.
O destino é que se torna turvo.

A gente esquece o que procura
e esquece que a saída
é uma só.

Somos criaturas odiosas,
repugnantes, monstruosas,
escondendo nossos próprios demônios.

Diagnosticamos defeitos no cérebro
e remédios pra almas perdidas.

Hipnose, conformismo, aceitação.
Desistência, indiferença, exaustão.

Assim se pinta a maldição
de uma geração.

Intensa pra quem consegue, distante, ver.
Um fardo pra quem é incapaz
de evitar sentir.

Para quem faz da arte sua respiração,
que a ela se apegue
e a cuide bem.

A arte é o pequeno feixe de luz
em uma prisão fria e escura.

Demos graças à resistência da arte
pra nos manter entorpecidos.

A arte é sobrevida
mesmo sem nada pra viver.

(07/05/2026)

Eu Não Sei Dizer Não

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Quando pedem uma mão
Entrego logo o coração
Não peço recibo e nem troco
É que eu não sei dizer não.

Deixo largado um pedaço de mim
Em todo lugar que eu piso
Eu sinto, calado
Nem mudo o semblante
Mas minto, e engano
A mim

Toda vez que pede socorro
Eu me adianto a te salvar
ainda que incendeie minha casa
É que eu não sei dizer não.

Se eu grito, não há voz
Se eu ligo, sem sinal
Quero dizer sem ter que falar
Quem alenta o Pagliacci
Enquanto a plateia ri?

Mas se me chama, atendo
Se me pede, eu vou
Dou a cara a tapa, o tempo a perder
É que eu não sei dizer não.

(06/05/2026)

Oi, como vai você?

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Paulo, te conheci pelas telas
e foi fora delas que te vesti

marquei meu braço como o seu
senti seus desabafos
me ancorei na sua força

te vi chorar ao perder um ídolo
de forma brutal
lembro do que sentiu quando ele se foi
porque senti a mesma angústia

o que eu não podia prever:
anos depois, tantas pedras

apagaram sua história
te fizeram alvo

do cancelamento
do julgamento precoce
da manipulação
da desumanização de um símbolo

te descartaram antes de te ouvir

eu ainda estava ali

te vi quebrando
e tentando reparar cada estrago

te vi pedir ajuda
sem resposta

até que a notícia chegou
logo após o natal

não pude acreditar

você se foi

não resistiu ao sofrimento

sempre me vi em você
sempre fiz da sua força meu exemplo

mas hoje eu sinto medo

e evito ouvir a voz
que insiste

que não cala

que aponta meu destino
ao mesmo do seu

(23/04/2026)

Suicídio às Avessas

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Acorda mais cedo e vem me encontrar.
Coloca o casaco, o inverno virá.
Leu minha mensagem?
Entendeu a instrução?

Desamassa a cara, pois vamos conversar.
Nem me pergunte aonde isso vai dar.
Chegou a hora de despedir,
me ajude a não resistir.

Eu quero morrer de vez
se for pra eu renascer
em um novo corpo,
sem nenhuma cicatriz.

Eu quero matar em mim
o que me faz insistir
na mesma casa,
na mesma cor de luz.

Não volta pra tua casa até terminar.
Tem coisas que o tempo devia apagar.
Vem logo me exorcizar,
vem me tirar daqui.

Eu quero morrer de vez
se for pra eu renascer
com outro coração,
sem essa escuridão.

Eu quero matar em mim
o que me faz insistir
em assistir ao mesmo filme
e à mesma cena.

E desejar mudar
aquele final,
sem ter nenhum poder.
Eu já posso prever.

Não existe retorno mais cabal
do que me deixar esquecer,
mesmo que eu queira dizer não,
mesmo que eu peça pra ficar.

Não há amor maior
do que deixar isso partir,
nem que me faça sangrar,
nem que vá me destruir.

Dorme mais cedo, vamos nos despedir.
Coloca um sapato, pra poder fugir.
Vem fazer meu parto?
Vem me batizar?

Preciso morrer
pra começar a viver.

(02/04/2026)

O Gelo

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A cada passo que eu dou
Me sinto mais longe de chegar
E esse corredor parece não ter fim
Eu tô cansado de tentar enxergar

Um recomeço depois de tanto caos
Esfrego os olhos pro borrão passar
Finjo que não sei
Tento me enganar

Todo dia uma nova gota
E eu aqui parado esperando
O copo transbordar
Até quando isso vai sustentar?

Fechei a porta
Pro frio não entrar
Perdi a chave
Deixei a luz se apagar

Falta um grão de areia
Pra desmoronar
Eu finjo que não vejo
Mas sei que não vai sarar

Na ida, marquei o caminho
Pra ser mais fácil de voltar
Mas a chuva veio
E eu nem quis olhar

Recalcularemos a rota
Destino é impossível de chegar
Pra onde é que eu vou?
Quem vai me acompanhar?

(31/03/2026)

Fadiga (Déjà Vu)

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Seis meses do lado de dentro
Me faz mal a luz, mesmo refletida da lua

Senti cheiro de poeira ao me preparar
Precisava me expor, provar o que já vivi

São tantas luzes e cores,
Em um novo endereço,
Mas os mesmos rostos,
As mesmas vozes,
Até as poses,
Parecia meu próprio passado

Uma nova embalagem
Pra um produto vencido
Com defeito de fábrica

Mais um anúncio
Pra um filme repetido
Com roteiro previsível,
Preguiçoso,
Esgotado

Pessoas se aglomeram na multidão,
Mas nem toda maquiagem vai cobrir
A exaustão impressa na face,
O mesmo disfarce no olhar

Mas eu consigo enxergar,
Porque também me sinto um zumbi

Pego mais uma bebida,
Procuro onde me acalmar

Saio e acendo um cigarro,
Não sei se quero ficar

Retorno ao centro do baile,
Observo o mundo rodar,
Enquanto me vejo estático,
Nenhuma emoção pra anotar

Pego mais uma bebida,
Pra evitar conversar

Saio e acendo um cigarro,
Quem tô querendo enganar?

Eis que ocorreu aquele momento
Que foi tão difícil de digerir
Foi uma das vozes antigas
Que me fez enxergar
Tão claramente

No meio de toda bagunça,
Eu me abaixo e pergunto:
“Pra você também é tudo sem graça?
Nada mais tem valor?”

No meio da pista,
Ela só acena que sim
Não é nossa essa valsa,
Perdemos o compasso

E a gente nunca aprendeu a dançar

Então eu volto pro quarto
Pra ficar de vez por aqui

Mas aquelas meias respostas ecoam
Com minha própria voz indagando:
O que te faz acordar?

(25/03/2026)

El Mundo

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Às vezes, o custo de ser capaz
de absorver o conceito das abstrações
e depois digeri-las em emoções
é um preço alto para qualquer um.

Eu queria tanto ter podido salvar
alguém que eu nem conheci,
mas senti profundamente
quando descobri que o mundo deixou partir.

Eu te li no jornal
e imediatamente senti
a sua dor,
a sua angústia.
Eu já estive naquele lugar.

Ontem, demorei a dormir;
não pude parar de pensar
em quantas almas deixamos de salvar,
em quantos corações não vão mais bater.

Eu sonhei com o que vi na TV:
“Prefiero desaparecer”.

Não aguentei o calor,
a boca seca, os questionamentos.

O que fazer para evitar pensar tanto?
Como poderia evitar?

Essa escolha,
o que a levou a tomá-la,
e quem te acompanhou no processo?

Por favor, pense mais:
há tanto que ainda se pode fazer.

O mundo sempre foi seu lugar,
mas você preferiu desaparecer.

Desliguei minha TV,
e a interferência não parava.
Mesmo com o rádio desligado,
eu podia ouvir o ruído interno.

Será que eu seria capaz
de te ajudar,
de te proteger,
de desfazer?

Mesmo aqui, tão de longe,
um oceano inteiro de distância,
queria tirar sua dor
e dizer que tudo iria passar.

Mesmo em outra estação,
em um fuso horário diferente,
só queria que soubesse
da lágrima que caiu por você.

Mesmo com o mundo em silêncio,
a sua dor ecoa em mim.

(28/03/2026)

Do meio pro fim

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Aquele relógio na parede da sala
continua quebrado desde que mudei,
desde que me mudaram.

Fica marcando a hora exata
em que a nuvem escura invadiu meu lar
e me deixou sem ar.

Aquele cigarro apagado na metade
continua no meu cinzeiro,
marcado com a cor do batom que usava,
a única coisa que se destaca
na sacada tão monocromática.

Nossas falhas nunca abandonam
e desenham toda a mobília da sala,
sempre tão assombrada,
vazia, exceto pelos fantasmas
e pela marca do seu copo
na madeira da estante.

O relógio quebrado na sala
me lembra quando a queda chegou,
e do instante em que comecei a gritar.

E nunca mais fui capaz
de parar.

Será que vou voltar…
a viver?

Hoje pensei em ligar,
mês passado quis reescrever,
cheguei a pensar em me mudar
pra não regar mais aquela planta
que sobreviveu ao furacão,
e fingir que esqueci de lembrar.

Ontem eu nem consegui dormir,
fiquei tentando prever
quando isso ia passar.

Ontem eu nem consegui dormir,
encarando, de hora em hora, o relógio
que se recusa a andar.

Quem é que vai poder me ajudar…
a consertar?
a renovar?

Ou eu também parei…
com tudo aquilo que ficou

Será que vou voltar…
a viver?

(26/03/2026)

Carta de Março (A/C: Desinteressados)

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Seria fácil apagar tudo
desarmar o interruptor
desligar o meu corpo,
analgésico para a dor

E lá vêm eles com suas lições:
“O segredo está no que digo…”
“Deveria voltar a estudar”

Mas lá vêm eles sobre minhas canções,
os que me ensinam como viver
do outro lado das suas telas,
os que não saberiam viver
caso seus smartphones morressem

Mas eles fingem que sabem de mim
e eu grito quando sei nada de mim
Me dê um tempo,
deixe o cigarro terminar

Eles pensam que sabem bem quem sou
como se vivessem minha vida por mim
tomassem os meus comprimidos,
usassem os meus tarja pretas
Então não me digam quando parar

Eu já até prometi parar de fumar
mais vezes do que pude contar
Eu tentei e parei
Eu voltei e fiquei

Mas sabem mais de mim do que eu:
“Vê se dorme mais cedo”
“Faça procedimento estético”

Eu já menti pra vocês se calarem
Me dê um momento pra eu poder pensar
em como eu escolhi ser
em como decidi viver assim

São tantos tentando me salvar,
mas ninguém disposto a ficar
às três da manhã neste bar
(ou em um quarto de hotel)
quando tudo que preciso é conversar

Quando quero falar do meu dia
e por onde vou estar pela manhã
meus planos, mesmo distantes
meus sonhos, entediantes

Quando acendo a luz
só vejo um quarto bagunçado
meu violão desafinado
e seu travesseiro desocupado

Eu não fumaria todas as minhas besteiras
os comprimidos ficariam na gaveta

Se fosse fácil apagar tudo,
desarmar esse interruptor,
transcender o meu corpo,
anestesiar a dor

(19/03/2026 – 05:19)

Carta de Adeus

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Eu prefiro viver com os espinhos
que perfuram as camadas da pele,
e me sentir rasgar a carne,
nos restos de garrafas quebradas
que a gente deixou no meu quarto

Estilhaços de vidro
espalhados pelo chão
há quase uma década
como se ninguém morasse aqui

Meus vizinhos me encaram no corredor
como quem enxerga minha alma oculta
julgando aquela nuvem cinzenta
que me segue onde quer que eu vá

Eu prefiro viver a ressaca
mesmo sem ter tido bebedeira,
e as dores de cabeça
que vêm junto com a culpa
por algo que desconheço.

Ou conheço?

A anestesia vai ceifar o vampiro
e vai me tornar apático,
simpático,
sem vida.

Será que o vampiro realmente sou eu?

O formigamento vai silenciar as vozes
e vai deixar tudo sem cor,
tão cinza,
sem poesia.

Será que o monstro vive em mim?

Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
perdeu toda a graça.

Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
e sei o exato momento em que vai dar errado.

Funcional,
mas tão vazio.

Estável,
com tanta ausência.

Eu quero ter o poder
de escrever o final,
de matar e morrer,
de decidir viver.

Eu quero acima de tudo,
escolher,
o sabor do veneno,
quando tomar,
ou de que forma partir.

Eu vivo sozinho
e não sei viver só.

Eu vivo procurando
e depois descartando.

Eu queria que fosse eu mesmo o autor
a redigir o meu texto,
e ser eu a escrever
as minhas próprias palavras.

A minha carta de adeus.

(19/03/2026)