
Às vezes, o custo de ser capaz
de absorver o conceito das abstrações
e depois digeri-las em emoções
é um preço alto para qualquer um.
Eu queria tanto ter podido salvar
alguém que eu nem conheci,
mas senti profundamente
quando descobri que o mundo deixou partir.
Eu te li no jornal
e imediatamente senti
a sua dor,
a sua angústia.
Eu já estive naquele lugar.
Ontem, demorei a dormir;
não pude parar de pensar
em quantas almas deixamos de salvar,
em quantos corações não vão mais bater.
Eu sonhei com o que vi na TV:
“Prefiero desaparecer”.
Não aguentei o calor,
a boca seca, os questionamentos.
O que fazer para evitar pensar tanto?
Como poderia evitar?
Essa escolha,
o que a levou a tomá-la,
e quem te acompanhou no processo?
Por favor, pense mais:
há tanto que ainda se pode fazer.
O mundo sempre foi seu lugar,
mas você preferiu desaparecer.
Desliguei minha TV,
e a interferência não parava.
Mesmo com o rádio desligado,
eu podia ouvir o ruído interno.
Será que eu seria capaz
de te ajudar,
de te proteger,
de desfazer?
Mesmo aqui, tão de longe,
um oceano inteiro de distância,
queria tirar sua dor
e dizer que tudo iria passar.
Mesmo em outra estação,
em um fuso horário diferente,
só queria que soubesse
da lágrima que caiu por você.
Mesmo com o mundo em silêncio,
a sua dor ecoa em mim.
(28/03/2026)
