
Depois que absorvi a inevitabilidade
Continuei a descer a ladeira
Dia após dia
Não porque tivesse mudado de ideia
Mas porque a estrada continuava ali
Se estendendo além da curva
Como sempre fez
Ainda escalo montanhas
Mesmo conhecendo o preço da subida
Os calos,
A astenia,
O peso nos ombros
Tudo chega na hora marcada
Mas dessa vez, eu escolho a hora
Pro alarme tocar
Quando eu atinjo o topo,
Não comemoro a vista do céu
Pois sei quanto vai doer pra voltar
E sempre se dói.
Nada fica,
Nada é eterno,
Nem mesmo a morte.
Ciente das tantas vezes que o freio falhará
Cheguei a me esconder no medo de confiar
Que existe uma força capaz de me parar
Confiei tanto que havia um destino só meu
Mas eu nem sabia aonde queria chegar
O que sei é que só existe uma saída pra gente
Fazemos todo esforço pra ignorar.
Mas já conheço esse roteiro
Trocam-se os cenários,
Trocam-se os nomes,
Trocam-se as dores
E a história insiste em continuar
Sempre levanto tendo o mesmo pesadelo,
Desejando nem ver esse novo dia raiar
Bebo insegurança como se fosse veneno
Talvez seja porque nunca fui bom da cabeça,
Mas já não quero que ninguém tente me salvar
A gente se machuca, se entrega
Luta e faz igual ao começo
Esperando algo novo pro final
Convencendo que esse era o plano
Por que continuo a subir
Se depois dali só tem chão?
Por que não poupar o esforço
E aceitar que o fundo é meu lugar?
Sempre que eu chego no topo
Eu lembro que não é meu lar.
Será que é assim tão errado
Assumir o impulso de saltar?
Se todo destino é sempre tão certo,
E o que machuca é o caminho até lá
Por que nos prendemos vendados ao hábito?
De subir, de descer
De cansar, de não desprender do receio de cair?
De fingir que certa hora vai ficar tudo bem?
E por mais quanto tempo eu deveria acreditar?
Revivemos só pra partirmos de novo depois
E continuamos vivendo,
Sofrendo e esquecendo,
Só pra morrer devagar.
Será que isso nunca esteve nas minhas mãos?
Pra quem foi feito o abismo?
Por que existe a escuridão?
Eu não tenho mais medo de contemplar
Então que me olhe no fundo do olho
E enxergue a minha alma exposta
Saiba que estou pronto quando vier me buscar
Quem sabe eu mesmo irei ao seu encontro
Quando a minha voz acabar?
(02/06/2026)
