
Noite passada recebi uma visita
Depois de anos tentando me esconder,
Dessa relutância pra evitar olhar nos olhos,
De tapar os ouvidos pra sua voz aveludada,
Ela veio sem ter sido convidada.
Ela chegou no fim da festa,
Quando não tinha ficado ninguém,
Até os créditos já tinham desaparecido.
Senti medo por tanto tempo
da resposta que já estava escrita
bem guardada, em envelope selado.
Eu só não queria abrir, mas já estava ali
E eu sei bem, pois fui eu quem redigi
Cada palavra calculadamente
Só que eu procurei esquecer
Elas têm um sabor agridoce
Tão reconfortante quanto familiar
Por muito tempo dissociei, enrolei, evitei
Mas ela sempre esteve logo ali
A assinatura era minha própria
E isso sempre será absolutamente imutável
Depois de tanto navegar contra a maré
Resolvi abraçar o que eu mantinha sob o tapete
Escondido bem no meio da sala de visitas
Enquanto esperava alguém vir me socorrer
Então eu entendi que era eu
As vozes, as dores, os ruídos
Eu tive a coragem de pular.
Perdi o medo de contemplar o abismo
Eu mesmo resolvi encarar.
Ele que se assuste com meu olhar.
Engajei-me contra,
Cheguei a me enganar
Mas eu sabia como seria
Afinal, eu mesmo escrevi o final
Agora eu sei o que eu sempre soube
Sei o que não devo impedir
Então que venha e me abrace de preto
Me dissolva e arraste por inteiro,
Contanto que eu decida os termos.
Se agora eu sei o que fazer
Me resta preparar o terreno.
Eu não achei que estaria tão pronto
Esperava mais drama, um último sinal
Mas já me trajei e ensaiei
Pra quando a minha valsa tocar
Pra quando eu começar a dançar
Agora que eu já decidi
Vou, sem medo
Sem pesar
Vai passar,
Eu prometo.
Eu escolhi,
Eu mapeei,
Eu vou seguir.
Só me falta resolver pontas soltas
Pra finalmente poder me soltar
(28/05/2026)
