
Passei tanto tempo exorcizando meus fantasmas
Que esqueci de lhes oferecer uma xícara de chá
Quem sabe um lugar pra se acomodarem
Passei tanto tempo contemplando o mais puro nada
Que por décadas aceitei que era tudo o que havia
Às vezes creio não fazer jus aos meus sentidos
Não, eu não peço concordância.
E tampouco aguardo compreensão.
Não há aqui mais força pra explicações
Sempre esteve imutavelmente cravado
Explicitado nas entrelinhas,
Na opacidade do meu olhar.
Declaro ciência das mãos estendidas
E das tentativas de ofertas de abrigo
Desconheço remédio que cure o veneno
Não existe conserto pra alma danificada
São muitos temporais
Que permanecem uivando
Mesmo com as janelas seladas
Vivo a carregar o peso do meu mundo
E de tudo o que posso deixar para trás
Nunca foram os cigarros, nem os comprimidos
Não era a bagunça no quarto, ou sequer o tédio
Minha função se limita à permanência
Mesmo quando já não me reconheço no espelho?
Mesmo enxergando toda partida
Da sacada do meu sexto andar?
Hoje não procuro respostas
Nem alguém pra me salvar
Não tentem me convencer
Não há energia pra voltar
O inverno se despede
E eu já não preciso esconder
Que faz arder minha pele o frio
Já não há mais razão pra fingir
Que não enxergo, de olhos fechados, o ciclo
Se existe a paz
Ela nasce daqui
Do segundo em que desistimos de negociar
Com tudo aquilo que sabemos ser inevitável
Então quando chegar a hora
Estarei de braços abertos
Pra passar pela porta,
e me acomodar onde há paz
Quando eu escolher a hora certa
estarei pronto pra partir daqui
para prosseguir sem dor
Desconhecer a guerra
Impulso é fator que inexiste aqui
Foram palavras e pensamentos
calculados, trabalhados,
desenhados com cuidado
Não há rasura.
Não tem rascunho.
Sem espaço pra desfazer.
Não levem a mal.
Quanto o sino tocar.
(06/06/2026)
