Sempre que eu procuro alguma forma de racionalizar o que aconteceu entre você e eu, parece que é uma daquelas decisões impossíveis de racionalizar – talvez fosse mais fácil se você apenas me dissesse sua versão das coisas.
Eu me lembro que meu interesse era pequeno, eu estava desiludido, desinteressado, enterrado até o pescoço em um ciclo de autopiedade seguido de autodestruição e auto sabotagem. E você estava ali, era só uma notificação, que convenhamos, mesmo que se tratasse de um diálogo ainda mais longo do que eu mantinha com qualquer outra pessoa naqueles meses iniciais de 2018, ainda eram poucos minutos. Eu não queria conversar, eu talvez quisesse passar o tempo, mas eu não estava pronto pra me entregar pra você.
Mas é pode ter sido na primeira vez que eu ouvi sua voz enquanto via seu rosto pessoalmente pela primeira vez – ao menos essa foi a versão que eu escolhi contar pra você e pra mim, e quem não gostaria? Parece tão romântico que dói. Mas o fato é que eu te vi entrar no meu carro e a gente foi até o cinema assistir um filme – que eu nem me lembro mais qual foi – mas ainda melhor do que o filme, foram aqueles sei lá, quarenta minutos (?) que a gente só conversou na praça de alimentação sobre o tudo e o nada antes do filme começar. E depois do filme uma surpresa um pouco menos romântica, mas como eu já deixei claro inúmeras vezes, meus interesses eram poucos, embora já estivessem grandes demais até para que eu percebesse, até porque se tratava das primeiras horas que eu te conheci. E aí veio o dia dia e em pouco tempo eu percebi o quanto eu amava estar perto daquela pessoa maravilhosa, que é até hoje a melhor pessoa que eu já conheci. E você retribuiu – já nem sei mais se retribuiu, mas quem é que pode mensurar ou mesmo compreender a intensidade dos sentimentos?
O tempo passou e eu vi em você uma casa, e eu construí ali tudo que eu precisava e que eu jamais teria descoberto antes em ninguém, muito menos em mim mesmo.
Eu não percebi quando morreu em você, e eu continuei cada vez mais me comprometendo e prendendo meus alicerces em uma casa que pra você já tinha mais aparência de um daqueles hotéis que se passa não mais do que mais um fim de semana. Eu errei e eu sofri, e me dói muito tentar compreender o que aconteceu nesse tempo de desarmonia que foi tanta que eu mesmo não percebi a existência.
E desde então, não existe um dia ou noite que eu não questiono suas razões ou o que eu fiz de errado. Eu nunca vou ser capaz de compreender como algo tão importante acabaria assim do nada. Mas não foi do nada, certo? Eu comecei tudo de uma forma desinteressada e escrevi um contro de fadas que talvez nunca tivesse existido e eu não consigo mais compreender que era só uma estória e não uma história. E eu sinto sua falta, assim como vou sentir até o fim dos meus dias. E tudo bem o fato de eu nunca compreender. Talvez fosse pra ser sentido o amor, da mesma forma que agora é pra sentir o luto eterno e a incerteza sobre o que foi tudo aquilo que aconteceu, especialmente naquele bizarro ano de 2018.
