CLEMENTINA: Uma visão borderline sobre a demonização do esquecimento

Leituras borderline centrada na humanização empática de personagens controversos: Jeffrey Dahmer, Ronnie Radke, Bojack Horseman, Coringa e Jesse Pinkman.

Uma leitura borderline de Jeffrey Dahmer

O mundo conheceu Jeffrey Dahmer como um assassino cruel, um canibal, um monstro. Documentários, jornais e podcasts o transformaram em ícone do horror, símbolo daquilo que se deve evitar, temer ou esquecer. Mas ao olhar mais de perto, sem o filtro do sensacionalismo, percebe-se que o horror que ele causou nasceu, em parte, do horror que ele carregava dentro de si: o medo desesperado de ser abandonado.

Este texto não busca inocentar. Também não romantiza. Mas se propõe a compreender. A ir além da imagem do predador. Meu olhar não é o de um médico-legista, mas de alguém que conhece por dentro a anatomia do desespero. Enxergo em Dahmer, ainda que em espelho deformado, um retrato extremo de algo que também vive em mim: o transtorno de personalidade borderline.

1. O desejo não de matar, mas de não perder

Dahmer não matava por prazer sádico, como outros serial killers clássicos. Seu impulso vinha de um lugar muito mais solitário: ele queria companhia, permanência, controle sobre a ausência. Queria que os homens com quem se envolvia nunca o deixassem. O amor, para ele, era um corpo que permanecesse — ainda que à força, mesmo que morto.

Essa é, de forma grotesca, uma distorção do medo de abandono tão comum no transtorno borderline. O pânico diante da perda o consumia por dentro, e sua forma de lidar com isso — pela violência — era monstruosa. Mas o sentimento de origem é tristemente reconhecível: a angústia de amar tanto a presença de alguém que a ideia da ausência se torna insuportável.

“Eu queria que eles ficassem. Só isso.” — Jeffrey Dahmer

2. O álcool como anestesia moral

Dahmer dificilmente cometia seus crimes sóbrio. Bebia antes, durante, depois. O álcool era seu ritual de entorpecimento, a forma como conseguia silenciar o que ainda restava de consciência moral. Ele dizia que, sóbrio, não suportaria o que fazia.

Isso é comum em muitos quadros de TPB: a automedicação com álcool ou drogas para anestesiar a vergonha, a raiva, o vazio. O que em outros casos vira automutilação, para Dahmer virou compulsão violenta — mas o mecanismo de fundo é semelhante: a dor é tanta que se tenta não sentir nada.

E eu entendo. Eu também já usei anestésicos. Não matei ninguém, mas já destruí partes de mim tentando escapar do que sentia.

3. Blackouts, dissociação e culpa

O segundo assassinato de Dahmer aconteceu durante um blackout. Ele disse que nem se lembrava de ter cometido o crime — e há razões clínicas para acreditar nisso. Episódios de dissociação são frequentes em pessoas com histórico de trauma e transtorno borderline: quando a dor emocional ultrapassa o suportável, a mente se desconecta da realidade.

Além disso, o primeiro assassinato o deixou em estado de choque. Ele não procurou repetir o ato logo depois, não sentiu prazer ou alívio. O trauma daquilo o afastou da violência por anos — algo impensável em um psicopata. Ele não queria ser aquilo, mas também não sabia como não ser.

4. O luto pelo amor que nunca chegou

Há um momento particular na trajetória de Dahmer que rompe até mesmo a lógica brutal de seus crimes: sua relação com Tony Hughes. Ao contrário da maioria das vítimas, Tony ficou com Dahmer por dias. Dormiram juntos. Cozinharam. Foi quase uma convivência, um início de algo parecido com vínculo.

E, quando o matou, Dahmer chorou. Falava de Tony com pesar sincero, mesmo anos depois. Havia ali um resto de humanidade — fragmentado, doente, mas real. O desejo de ter um parceiro que o visse, que ficasse, que o amasse. Mas o medo de ser deixado era maior do que a esperança de ser amado. Ele escolheu o que conhecia: a morte como garantia de permanência.

5. O arrependimento e a entrega

Ao ser preso, Dahmer não negou, não fugiu, não mentiu. Contou tudo em detalhes. Disse que não queria defesa, nem perdão. Ele sabia o que havia feito, e queria pagar por isso. Desejava morrer. Dizia que não merecia estar vivo.

Essa postura é radicalmente diferente da frieza calculada do psicopata. Há ali vergonha, desespero, arrependimento genuíno. Sentimentos que não surgem do nada. Sentimentos que indicam que, em algum nível, ele ainda se importava — não com a sociedade, talvez, mas com o que havia se tornado.

E eu entendo. Não os atos, mas o buraco. Não a violência, mas o silêncio de onde ela nasce. Aquela sensação de que se é intrinsecamente errado, defeituoso, imperdoável. A dor de se odiar ao ponto de desejar o desaparecimento.

Conclusão: a tragédia de não ser visto

Dahmer foi um criminoso brutal, sim — mas também foi uma criança negligenciada, um adolescente isolado, um homem que nunca aprendeu a amar nem a ser amado. Sua história não é desculpa. Mas é alerta. Um aviso sobre o que acontece quando o sofrimento psíquico é ignorado, ridicularizado ou tratado apenas como aberração.

Se ele tivesse sido visto a tempo — se tivesse encontrado um espaço para falar, para sentir, para ser acolhido — talvez os corpos não tivessem se acumulado. Talvez a dor tivesse encontrado outro caminho.

E se eu não tivesse sido visto a tempo?
Se ninguém tivesse me acolhido quando o desespero tomava meu corpo?
Se meu medo de abandono tivesse crescido sem contenção?
Eu não seria ele. Mas talvez tivesse me perdido também.


Ronnie Radke: Análise Fundamentada no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

1. Medo Intenso de Abandono e Relações Interpessoais

Um dos pilares do TPB é o medo profundo e constante de abandono, real ou imaginado, que leva a uma oscilação emocional intensa nas relações pessoais. Na vida de Ronnie Radke, esse medo se refletiu em conflitos interpessoais públicos, especialmente nas dinâmicas com membros de sua banda e parceiros próximos. Essas relações muitas vezes foram marcadas por idealização extrema seguida de rejeição, típico do padrão de apego instável presente no TPB.

2. Instabilidade Emocional e Autoimagem

Ronnie viveu uma intensa montanha-russa emocional, evidenciada tanto nas suas ações quanto nas letras de suas músicas. Essa instabilidade, caracterizada por mudanças bruscas de humor e uma autoimagem flutuante, dificulta a manutenção de uma identidade coerente — algo comum em pessoas com TPB. Sua trajetória artística é um retrato dessa luta interna, em que o sofrimento emocional é expresso como forma de busca por compreensão e conexão.

3. Impulsividade e Comportamentos de Risco

A impulsividade, outro sintoma central do TPB, aparece na vida de Radke em diversos momentos, incluindo episódios de abuso de substâncias, envolvimento em conflitos judiciais e decisões precipitadas que tiveram impacto direto em sua carreira. Essa impulsividade não deve ser encarada apenas como irresponsabilidade, mas como uma tentativa de lidar com angústias internas intensas e momentos de crise emocional.

4. Sensação Crônica de Vazio e Busca por Sentido

Radke frequentemente expressou, em entrevistas e em sua arte, sentimentos profundos de vazio e incompletude — experiências que acompanham o TPB. Esse vazio alimenta tanto uma forte necessidade de conexão com os outros quanto comportamentos autossabotadores que perpetuam ciclos de instabilidade. Essa tensão interna é um motor constante em sua expressão artística e pessoal.

5. Momentos Cruciais: Prisão e Reinvenção

Um ponto de virada na vida de Ronnie foi seu período na prisão, consequência de conflitos judiciais e pessoais. Esse momento representou tanto uma crise extrema quanto uma oportunidade para reflexão e mudança. Sua volta ao cenário musical com a banda Falling in Reverse marcou uma reinvenção, ainda permeada por desafios emocionais, mas também com uma vontade clara de reconstrução pessoal e profissional.

6. Popular Monster: A Expressão da Dor e da Luta Interna

O álbum e especialmente a música Popular Monster são marcos na carreira de Radke, pois sintetizam sua luta contra demônios internos e o confronto com o próprio sofrimento mental. A letra da música revela sentimentos de isolamento, conflito interno e desejo de superação, expressando claramente aspectos da instabilidade emocional e da impulsividade do TPB. Esse trabalho artístico é uma forma poderosa de externalizar seu tormento e, ao mesmo tempo, dialogar com fãs que enfrentam dores semelhantes.

7. Arrependimento, Consciência e Busca por Redenção

Ao longo de entrevistas e declarações públicas, Ronnie demonstra momentos de autoavaliação e arrependimento, reconhecendo erros e buscando melhorar. Essa consciência é fundamental no contexto do TPB, indicando que, mesmo com padrões emocionais difíceis, há espaço para transformação. Sua trajetória mostra que a luta com o transtorno é contínua, mas permeada por tentativas genuínas de autocuidado e crescimento.

8. Considerações Finais: Complexidade e Humanização

Ronnie Radke não pode ser reduzido a suas falhas ou controvérsias. A análise sob a perspectiva do TPB revela um homem marcado por uma intensa instabilidade emocional, medo de abandono, impulsividade e sentimentos profundos de vazio — aspectos que influenciam sua arte e sua vida. Essa compreensão humanizada convida a empatia e ao reconhecimento da complexidade que habita por trás das aparências públicas.


BoJack Horseman: Uma Narrativa Borderline de Colapso, Desejo e a Vista da Metade do Caminho

1. Desregulação Emocional e Ciclos de Autodestruição

BoJack Horseman exemplifica padrões clássicos de desregulação emocional frequentemente observados em pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline. Ele oscila em ciclos violentos de idealização e desvalorização — não apenas dos outros, mas de si mesmo — ansiando por conexão enquanto sabota a intimidade, buscando sentido enquanto destrói cada fonte dele. Sua vida se transforma em um looping de fuga e arrependimento, alimentado por vícios, fragilidade narcisista e uma fome vazia por afeto que ele não consegue digerir.

2. Negligência na Infância e a Herança da Ausência Emocional

A estrutura emocional de BoJack é construída sobre um trauma infantil profundo. Criado em um lar sem afeto, com uma mãe narcisista e um pai emocionalmente ausente, ele internaliza a ideia de que o amor é condicional, frágil e, no fim das contas, perigoso. Essa origem molda sua autoimagem distorcida, sua dificuldade em confiar e seu impulso compulsivo de performar em vez de simplesmente existir. A fama não é realização, mas uma máscara que ele veste para adiar o colapso.

3. Difusão da Identidade e o Medo do Eu Autêntico

No centro do sofrimento de BoJack está uma identidade fragmentada. Ele não consegue formar um senso de si coeso — mudando constantemente entre papéis, vícios, personas e delírios. Ele deseja ser visto, mas teme ser exposto. O resultado é uma vergonha crônica, escondida sob camadas de ironia, abuso de substâncias e crueldade. Ele performa vulnerabilidade, mas raramente a vive. O público vê um homem tentando confessar por trás de uma muralha de autodefesa — e fracassando, quase sempre, até ser quase tarde demais.

4. Vício Como Anestesia Emocional

Os vícios de BoJack — álcool, remédios, sexo, trabalho, validação — não são fontes de prazer, mas formas de dormência. Seu uso de substâncias é uma tentativa de anestesiar um eu que ele não suporta, memórias que doem, uma voz interna que nunca para de acusá-lo. Em muitos momentos, o vício não é sobre se sentir bem — é sobre silenciar o ruído.

5. Apego, Ambivalência e a Destruição da Intimidade

Os relacionamentos na vida de BoJack são marcados por intensidade, desejo, sabotagem e abandono. Ele busca amor, mas se retrai no instante em que ele se torna real. Com Diane, Todd, Princess Carolyn e Sarah Lynn — cada vínculo se torna um espelho que reflete seus danos internos. Ele se agarra, depois se afasta. Pede desculpas, depois repete. E quando as pessoas vão embora, isso só confirma o que ele já acredita: que ele é irremediavelmente quebrado e indigno de amor.

6. “The View From Halfway Down”: O Limite Entre Arrependimento e Realização

O penúltimo episódio, “The View From Halfway Down”, funciona como um acerto de contas simbólico — uma alucinação de quase-morte que despedaça toda negação. BoJack é confrontado com o peso psicológico total da sua vida. Nesse espaço liminar, o poema que dá nome ao episódio se torna o núcleo emocional — não apenas um verso, mas um espelho psíquico de todos os momentos que ele se recusou a enfrentar.

“Você pensaria que eu ainda teria voz / Mas cheguei à beira e não havia nenhuma.”

Essa linha captura o silêncio existencial do arrependimento. Representa o momento de clareza irreversível — quando já é tarde demais para voltar. A vista da metade do caminho não é bonita. Não é poética. É horror, realização e perda — o tipo que não mata instantaneamente, mas arrasta por cada centímetro do que poderia ter sido.

7. Desespero Existencial e a Busca por Sentido

O desespero de BoJack não é apenas emocional — é existencial. Ele não pergunta só “eu sou bom?”; ele pergunta “eu importo?”. Seu colapso não gira apenas em torno da culpa, mas da ausência de significado que ele sente por trás dela. E mesmo assim, a série nunca lhe oferece redenção fácil. Em vez disso, oferece algo mais raro: a chance de resistir, confrontar, permanecer na ambiguidade — e, talvez, reconstruir.

8. A Dor de Sobreviver

Quando BoJack sobrevive à overdose, a narrativa evita encerramentos. Não há recuperação triunfante, nem redenção hollywoodiana. O que há é responsabilidade. Sobreviver não é prêmio — é início. Exige que ele enfrente o que fez, não só aos outros, mas a si mesmo. E embora a cura permaneça incerta, o simples ato de continuar vivo já é, por si só, um gesto radical.

9. Considerações Finais: A Metade do Caminho Não É o Fim

BoJack Horseman não é vilão, nem herói. Ele é sobrevivente de si mesmo — um homem com uma mente que não consegue sempre suportar, um coração que desconfia, e uma história que não pode reescrever. Mas em “The View From Halfway Down”, ele recebe algo raro: não perdão, mas clareza. E às vezes, clareza é o que nos salva.

Para muitos espectadores, o episódio não é ficção — é testemunho. Ele diz: se você está perto da beira, não pule. Você pode não ver ainda, mas a queda não te liberta — ela apenas confirma seus piores medos. Fique. Respire. Espere.

10. Análise do Poema: “The View From Halfway Down” — Uma Carta de Suicídio Escrita Tarde Demais

O poema no coração do episódio é uma autópsia psicológica — uma mensagem vinda de quem já pulou, mas ainda está no ar. Recitado por Secretariat (ídolo de infância de BoJack, e também projeção de si mesmo), ele retrata o momento da queda: um espaço simbólico entre decisão e consequência, entre clareza e impacto.

“Eu estava na beira e uma voz na minha cabeça disse: ‘Pule.’”
Pensamentos intrusivos, dissociação — o tipo de ideação suicida que não parece escolha, mas ordem. Uma voz que não soa como sua.

“E eu pulei.”
Simples, direto, seco. Não há beleza, nem drama. Apenas a ação. Já é tarde.

“Eu mudei de ideia / Eu quero viver!”
Aqui está o centro da tragédia. O arrependimento é imediato, desesperado. Não é poético — é primitivo. Um grito que ninguém escuta.

“Tem tanto céu.”
O “céu” se torna metáfora da vida que ainda existia. Do que ele só consegue enxergar agora, que está caindo. Não é liberdade — é perda.

“A vista da metade do caminho.”
A imagem central. Representa o ponto de não-retorno em que se percebe o erro, mas já não é possível voltar. A realização vem no vazio.

“Eu queria ter sabido / sobre a vista da metade do caminho.”
A última linha é devastadora: diz que, se soubesse como seria a queda, ele não teria pulado. É um apelo — não aos mortos, mas aos quase.

11. Integração: Quando o Poema se Torna um Espelho

O episódio não tenta salvar BoJack — ele o confronta. O poema não romantiza o suicídio — ele o desconstrói. Para quem já esteve perto desse limite, o poema não é ficção. É espelho. Frio, real, duro. E, acima de tudo, um lembrete: a metade do caminho não é o fim — se você ainda puder voltar.

Para aqueles que se viram em BoJack, no poema, no episódio, isso significa algo profundo: ainda estamos aqui. Ainda respiramos. E isso — mesmo imperfeito — já é um começo.


O Coringa (interpretado por Joaquin Phoenix): Uma Análise Psicodinâmica e Humanizada

1. Isolamento Social e Desconexão Emocional

Arthur Fleck, o homem por trás do Coringa, é marcado por um isolamento social extremo e uma desconexão emocional com o mundo ao seu redor. Sua dificuldade em estabelecer vínculos afetivos e sua sensação de invisibilidade refletem a experiência de quem vive uma profunda exclusão social e solidão, elementos que desencadeiam e intensificam seu sofrimento psíquico.

2. Transtornos Mentais e Sintomas Psicopatológicos

Ao longo do filme, Arthur manifesta sinais compatíveis com múltiplas condições mentais, como transtorno de humor, traços psicóticos (alucinações e delírios) e possível transtorno de personalidade. Sua risada incontrolável, involuntária e inadequada socialmente, simboliza a desregulação emocional e um mecanismo complexo de comunicação e proteção diante da dor interna.

3. Vulnerabilidade e Trauma na Infância

O passado de Arthur revela abusos e negligência, especialmente na infância, que são fundamentais para compreender suas dificuldades atuais. O trauma infantil é um fator crucial para o desenvolvimento de vulnerabilidades psicológicas profundas, como baixa autoestima, desconfiança e padrões de relacionamento disfuncionais.

4. Fragilidade da Realidade e Ruptura com a Identidade

Ao longo da narrativa, Arthur perde progressivamente o contato com a realidade consensual, confundindo fantasia e realidade. Essa ruptura é ilustrada pelas alucinações e pela construção de uma nova identidade — o Coringa — que funciona como um mecanismo de defesa para lidar com o sofrimento e a rejeição.

5. Raiva e Rebeldia como Expressão de Sofrimento

O personagem canaliza sua dor, rejeição e frustrações em atos de rebeldia e violência, que são tanto um grito por reconhecimento quanto uma tentativa de romper o ciclo de exclusão. A raiva exacerbada funciona como uma forma de empoderamento momentâneo, embora destrutiva, diante de uma realidade opressora.

6. Representação do Estigma e Falhas no Suporte Social

O filme evidencia, através da trajetória de Arthur, as falhas do sistema de saúde mental e da sociedade em acolher pessoas vulneráveis. A falta de suporte adequado agrava o sofrimento e contribui para a escalada dos sintomas, mostrando como o abandono institucional pode transformar a dor individual em tragédia social.

7. Complexidade e Humanização do “Vilão”

O Coringa de Joaquin Phoenix não é um simples antagonista, mas uma figura complexa que personifica o impacto devastador do sofrimento mental não tratado, da exclusão social e do trauma. A humanização do personagem convida à reflexão sobre empatia, saúde mental e os efeitos das desigualdades sociais na construção de figuras consideradas “monstruosas”.

8. Considerações Finais: Um Retrato da Vulnerabilidade Humana

Esta versão do Coringa é um retrato sombrio e sensível das fragilidades humanas, onde a linha entre vítima e agressor se confunde. Seu percurso mostra que, sob camadas de violência e caos, existe um ser humano dilacerado pela dor, cuja transformação trágica reflete falhas coletivas e individuais.


Jesse Pinkman: Entre as Ruínas da Culpa e o Desejo de Redenção — Uma Leitura Borderline

1. A Criança Que Ninguém Levou a Sério

Jesse Pinkman não começa como um anti-herói clássico. Ele surge como um estereótipo: o drogado, o pequeno traficante, o aluno fracassado. Mas por trás do sarcasmo, da gíria forçada e dos olhos vermelhos, há uma dor silenciosa: a de alguém que nunca foi verdadeiramente visto. Vindo de uma família que o desprezava e de um sistema escolar que o descartava, Jesse cresceu aprendendo que não era suficiente — que suas falhas eram parte de sua essência.

O resultado é um senso de identidade difuso, oscilante, carente. Jesse é constantemente moldado por quem o cerca, procurando aprovação, direção, qualquer tipo de pertencimento — mesmo que isso o leve para o fundo.

2. Apego Desorganizado e Padrões de Relacionamento Borderline

Jesse forma laços afetivos com intensidade emocional profunda — e vulnerabilidade extrema. Seu desejo por conexão autêntica é tão forte quanto seu medo do abandono. O vínculo que cria com Jane, e depois com Andrea e Brock, reflete padrões de apego típicos de alguém com estrutura borderline: relações que se tornam sua âncora emocional, ao mesmo tempo em que o deixam à beira do colapso quando ameaçadas.

Quando Jane morre, Jesse não apenas perde alguém — ele perde o senso de si que havia encontrado através dela. E o luto, em vez de ser metabolizado, se transforma em culpa corrosiva. Ele se convence de que é o responsável por tudo de ruim que acontece. A lógica emocional de Jesse não é racional — é visceral, caótica, autodestrutiva.

3. A Relação Com Walter White: Manipulação, Submissão e Trauma

A dinâmica entre Jesse e Walter é central para entender a espiral mental de Jesse. Walter representa uma figura ambígua: mentor, pai simbólico, parceiro — e, ao mesmo tempo, seu maior algoz. Jesse se submete a Walter repetidas vezes, buscando aprovação, como um filho que ainda espera ser amado por um pai frio e controlador.

Essa relação é marcada por ciclos de idealização e desvalorização: Jesse o admira, depois o odeia, depois o perdoa — e então repete. Walter vê Jesse como instrumento, mas Jesse o vê como espelho: quer acreditar que, se Walter pode perdoá-lo, talvez ele também possa se perdoar. Mas esse perdão nunca vem. Apenas mais trauma.

4. Culpa, Autoaversão e Crises Dissociativas

A trajetória emocional de Jesse é marcada pela culpa — mas não uma culpa moralizada, e sim existencial. Ele carrega o peso de mortes que não causou diretamente, mas que sente como suas. Crianças, mulheres, amigos. Cada uma dessas perdas se transforma em uma nova ferida que ele tenta anestesiar com drogas, fuga ou silêncio.

Momentos como o jantar com a família White, ou a sequência em que ele joga dinheiro pelas casas dos desconhecidos, revelam estados de dissociação e autoaversão intensos. Ele quer se apagar, desaparecer, se punir — como se a própria existência fosse um erro. Isso é característico de quadros borderline graves: a perda do senso de valor próprio, a autodestruição como tentativa de expiação.

5. Jane Margolis: Amor, Codependência e a Ruína da Esperança

Jane não é apenas um interesse amoroso para Jesse — ela é a primeira pessoa que o vê com profundidade. A relação dos dois, embora envolta em vícios e impulsividade, é uma tentativa desesperada de reencontrar ternura num mundo brutal.

Quando Jane morre, Jesse colapsa. Não só por perdê-la, mas porque, no íntimo, ele acredita que a matou. Essa crença — plantada pela manipulação de Walter — o envenena por dentro. O luto não vira memória, mas trauma. E toda tentativa futura de se apegar será feita com medo, retração, e um sentimento permanente de que o amor traz morte.

6. Andrea e Brock: O Último Resquício de Humanidade

Ao se conectar com Andrea e seu filho Brock, Jesse tenta uma reconstrução. Pela primeira vez, ele parece desejar uma vida fora do crime, com afeto e propósito. Mas esse novo capítulo é, novamente, destruído pela lógica implacável de Walter.

A morte de Andrea marca o ponto sem retorno. Jesse perde a única âncora emocional que ainda possuía. Mais do que dor, há entorpecimento. Ele entra num estado de rendição emocional — é o momento em que sua humanidade é silenciada, e ele se torna prisioneiro não só físico, mas também psíquico.

7. Prisão, Escravidão e Anulação da Identidade

Durante o cativeiro sob os neonazistas, Jesse é reduzido ao estado de objeto. Não há mais ironia, fala, resistência — há apenas obediência e olhos vazios. Essa fase representa o ápice do colapso identitário. Jesse não é mais Jesse. Ele é aquilo que sobrou.

É significativo que, mesmo sob tortura, ele não tente escapar por meio do suicídio. Há uma parte dele, mesmo quase morta, que ainda espera. Ainda resiste. E isso diz muito sobre o espírito do personagem: ele continua vivo por pura insistência da alma.

8. O Desejo de Fugir e a Possibilidade de Reconstrução

Ao final da série, Jesse finalmente escapa. Não há discurso de redenção, não há reconciliação. Há grito, fúria, lágrimas, volante em alta velocidade. E, dentro desse caos, uma faísca: a possibilidade de viver.

Diferente de Walter, Jesse não deseja glória. Ele quer paz. Quer sumir. Quer recomeçar. E esse desejo, por si só, é um tipo de cura. Uma sobrevivência sem espetáculo — mas ainda assim, uma sobrevivência.

9. Jesse Pinkman Como Um Retrato Borderline

Jesse carrega traços significativos de um quadro borderline: identidade instável, relacionamentos intensos e conturbados, impulsividade, luto patológico, culpa crônica, idealização de figuras ambivalentes, sentimentos persistentes de vazio, e episódios dissociativos. Ele não é um vilão, nem um herói. É alguém tentando sobreviver a si mesmo.

Sua dor não é ficcional — é reconhecível. E sua trajetória é um lembrete brutal de como negligência, manipulação emocional e ausência de apoio podem destruir lentamente alguém que só queria amar e ser amado.

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Autor: Alex Machado

Eu fecho os olhos só pra te visitar - Eu sonho só pra ter paz.

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