
eu não escrevi esse texto
eu só encontrei ele aqui.
entre uma coletânea de prints antigos
e um silêncio que eu não lembro de ter feito
mas que continuam ali, pra provar que existiu
entre os arquivos corrompidos de fotografias
e aquele e-mail que você me mandou
que continua fixado, pra eu lembrar que existiu
dizem que foi amor
o legista não soube confirmar
“temperatura inconsistente”
ausência de sinais claros de ruptura
mas eu lembro
eu juro que lembro
ainda estava quente
só que aconteceu
aos poucos
como tudo que a gente não percebe enquanto ainda está envolvido
em processo de negação
nunca teve grito
jamais uma porta batendo
não teve nada escrito pra parte final
teve rotina
teve “boa noite”
teve o último plano de domingo
Ah, esse último plano de domingo…
e em algum lugar entre um abraço e outro
alguma coisa parou
sem avisar
eu procurei sinais
revirei mensagens
li tudo de novo mais de cem vezes
tentei encontrar o momento exato em que deixou de ser
não encontrei
continuo fingindo não ver
finais inacabados
não acabam nunca
parecem o mesmo pesadelo
noite após noite
há quase uma década
somos só versões melhores do que já não existe mais
Me estranha tanto
porque tudo ainda parece intacto quando eu olho de longe
como uma casa montada
com luz acesa
mas sem ninguém dentro
e eu fico na porta
sem saber se fui embora
ou se nunca mais voltei
às vezes eu penso que ainda está acontecendo
em algum lugar específico do tempo
onde ela ainda ri pra mim
onde a gente ainda se encaixa
onde dormir não exige esforço
mas não é aqui
aqui só sobrou o depois
e só tem um de nós dois
me disseram pra seguir
como se fosse uma via
como se houvesse direção
mas paralisei-me no mesmo ponto
enquanto tudo em volta continua andando
Anos, anos e mais anos
Pessoas,
depressão,
e autodestruição em looping
Solidão,
renascimento
e negação dos fatos
eu não sei explicar
como algo tão inteiro
vira lembrança sem passar por quebra
como alguém deixa de existir na sua rotina
mas continua ocupando espaço dentro do peito
anos, anos e mais anos
quilômetros
e versões minhas que você nunca vai conhecer
não foi falta de amor
isso eu consigo afirmar
não só por mim, mas por você
foi outra coisa
que eu ainda não sei nomear
e talvez nunca saiba
eu tentei transformar isso em texto
pra ver se virava explicação
não virou…
continua sendo só um registro mal feito
de algo que não pediu pra ser entendido
então eu deixo assim
incompleto
como tudo que foi importante o suficiente pra não caber em fim
e se alguém perguntar:
eu nego
digo que não escrevi
porque aceitar que fui eu
é admitir que ainda tem alguma coisa viva aqui
e eu não sei o que fazer com isso
horário da morte: inconclusivo
eu só enxerguei tarde demais
(17/03/2026 — 02:07)
