
Eu prefiro viver com os espinhos
que perfuram as camadas da pele,
e me sentir rasgar a carne,
nos restos de garrafas quebradas
que a gente deixou no meu quarto
Estilhaços de vidro
espalhados pelo chão
há quase uma década
como se ninguém morasse aqui
Meus vizinhos me encaram no corredor
como quem enxerga minha alma oculta
julgando aquela nuvem cinzenta
que me segue onde quer que eu vá
Eu prefiro viver a ressaca
mesmo sem ter tido bebedeira,
e as dores de cabeça
que vêm junto com a culpa
por algo que desconheço.
Ou conheço?
A anestesia vai ceifar o vampiro
e vai me tornar apático,
simpático,
sem vida.
Será que o vampiro realmente sou eu?
O formigamento vai silenciar as vozes
e vai deixar tudo sem cor,
tão cinza,
sem poesia.
Será que o monstro vive em mim?
Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
perdeu toda a graça.
Eu não quero mais assistir esse filme
já decorei o roteiro.
e sei o exato momento em que vai dar errado.
Funcional,
mas tão vazio.
Estável,
com tanta ausência.
Eu quero ter o poder
de escrever o final,
de matar e morrer,
de decidir viver.
Eu quero acima de tudo,
escolher,
o sabor do veneno,
quando tomar,
ou de que forma partir.
Eu vivo sozinho
e não sei viver só.
Eu vivo procurando
e depois descartando.
Eu queria que fosse eu mesmo o autor
a redigir o meu texto,
e ser eu a escrever
as minhas próprias palavras.
A minha carta de adeus.
(19/03/2026)
