Eu era uma criança solitária, gostava de ficar no meu canto observando e julgando o mundo ao meu redor, como se eu estivesse dentro de uma bolha de vidro. Muitas vezes tentei ser como os outros garotos, mas eles eram tão diferente, e eles não me queriam por perto. Muitas vezes por querer, muitas vezes por medo dos outros garotos, eu me sentava sozinho, eu ficava sempre sozinho no intervalo do colégio.
Meu primeiro beijo foi um episódio diferente da história da maioria dos garotos da minha idade, e inclusive demorou mais tempo para acontecer do que o dos outros garotos, porque eu não ligava, e porque eu tinha muito medo de ir falar com uma garota. Aconteceu por acaso, eu estava ali sentado e uma garota me chamava atenção, pele clara e cabelos escuros tinha ela, tentei me aproximar mas não tive coragem de ir falar com ela. Dois dias depois ela se sentou do meu lado e começou a puxar assunto, eu com minhas poucas palavras respondia e não sabia como prolongar o assunto, foi quando aconteceu de eu ter meu primeiro beijo.
Aquele momento, assim como aquela garota significavam mais pra mim do que deviam, porque a minha bolha de vidro havia sido quebrada, e meu mundo agora era o mundo lá fora.
O mundo separou nossos destinos e eu pouco ouvia falar sobre ela, diziam que ela tinha se mudado pra bem longe, e eu disfarçando minha frustração por não ter me despedido daquela menina me impedia de sorrir por muitos meses.
Cerca de 5 anos depois eu iria a um encontro de família e amigos da minha mãe, contrariado e sem a menor vontade de sair de casa, sentei-me ao lado da minha irmã mais nova enchi um copo de cerveja e comecei a refletir sobre o quanto minha vida estava turbulenta nos últimos dias, após recentes acontecimentos que estavam me deixando meio depressivo. De repente eu olho para uma aglomeração de pessoas, e no centro o sorriso mais lindo que já vi, e lá estava aquela menina que eu já não via há tantos anos e parecia muito mais linda do que eu me lembrava. Comecei a me coçar de vontade de ir falar com ela, mas eu tinha plena certeza de que mesmo que ela se lembrasse daquele garoto que eu era, as energias seriam diferentes e os assuntos poderiam acabar sendo incompatíveis, levando toda aquela ilusão embora – a qual eu preferia manter. Levantei da mesa onde eu me sentava e subi pra uma área isolada de onde a festa acontecia, e na minha frente ela passou por mim e sorriu pra mim, foi quando eu consegui disparar um “você se lembra de mim?” e ela com um sorriso desconcertado disse sim. Aquela tarde passou tão rápido que logo já era noite e estávamos deitados às bordas da piscina observando o céu (que pra ser sincero não era grande coisa, não haviam estrelas, era tudo pelo momento).
Dentro do que eu sentia, pude perceber uma compatibilidade muito grande e senti que eu precisava muito estar com ela de novo, e dessa vez com menos inocência do que quando se tem 12 anos de idade.
Tive que ir embora e me despedi dela, que ali ficaria até o dia seguinte. Ao chegar em casa, tentei procurar ela em alguma rede social para contar pra ela como eu havia me sentido, mas eu não consegui encontrar em lugar nenhum, era como se houvesse algo me impedindo de chegar até ela, tentei todos os meios possíveis, até que desisti e fui dormir.
Na manhã seguinte, após pouquíssimas horas de sono, eu decidi voltar para aquele lugar pra reencontrar ela e tentar conseguir o numero de celular, eu não iria me conformar de forma alguma em simplesmente não vê-la nunca mais, sentia que o destino estava traçando algo muito forte, algo que às vezes a gente perde sem querer.
Nos falamos por alguns dias, e eu já conformado que nada aconteceria entre a gente, e que o destino poderia na verdade ser uma serie de coincidências, resolvi sair de casa para fazer compras, peguei um caminho diferente do habitual pois havia uma parte escura na praça que eu cruzaria e eu não me senti seguro em passar por ali, então contornei a praça e passei por outra rua, bem perto de chegar em casa. Quando eu estava caminhando olhando pra baixo, eu consegui ver a barra da saia de alguém, e quando fui olhar pro rosto, lá estava ela, perto da minha casa bem na minha frente, aquilo foi como se o destino tivesse me confirmando de que eu devia insistir um pouco mais.
Mas eu faço perguntas ao vento esperando que ele sopre as respostas. Como eu poderia saber quando desistir ou se devo? Como eu devo fazer isso sem me machucar? Eu teria chances algum dia, mesmo que olhando pra ela eu pense mesmo que não?
Espero mesmo que um dia essas respostas sejam respondidas, e desejo que sejam positivas pra eu estar ao lado de alguém que eu quero bem.
