
Ouço nova canção em frequência idêntica.
Daqui um par de anos seria uma década.
Parece naturalizado esforço pra não lembrar.
Toda surpresa é ambígua e me causa repulsa,
Mas às vezes o que me repulsa também me atrai.
Até parece uma fidedigna cópia de outrora,
naquela simbólica chama cor-de-rosa,
Mesmo vivendo sempre escondido no silêncio,
Ainda que tenha esquecido que podia lembrar.
Serão esses faróis a ilusão do exagerado,
o encontro da direção em outro endereço,
ou segundo resgate do quase-conhecido?
Serão esses faróis a perdição do emocionado,
a progressão da cegueira pós tolerância de paliativos,
ou a ironia da oportunidade de reviver o acidente?
Reviver todo estrago causado?
Teria eu me despedido ou em estado de coma?
Logo eu que prometi parar de repetir canções,
que decidi cortar o cabelo, trocar até o preto,
fui descoberto vampiro em disfarce outra vez.
Com hipnose e um pouco de ternura
Até parece que vai voltar agora,
Depois da chama cor-de-rosa
Irei me expor à vontade que tanto assustava
Agora que não há razões para não lembrar
Um início diferente dos outros todos:
padrões, comuns, comportamentos modulares.
Assemelha tanto ao que só eu ainda recordo.
Ao que só existe quando me falta lucidez.
Fui e serei vampiro no crepúsculo, sem menção a qualquer filme
São várias notificações saltando como se não quisesse fazer o jogo de sempre
Ressaltando olhar tão reluzente e cabelos igualmente dourados
O camafeu tatuado, em lugar diferente, é fato,
Mas as palavras são quase tão idênticas
Quando se utiliza do jeito de frasear que eu até decorei
O padrão se repete?
Como decidir, se é um misto de receio com sonho?
A repulsa do trauma, ou a atração do desejo?
Se já puderes me enxergar sem as máscaras,
e já reconheceres meu vampiro, e o abraçares,
estarei pronto para arriscar novamente.
Seremos eu, você e a eternidade a nos acompanhar.
(20/02/2026)
