SiMbIoGeNESe

Tentei cravar a estaca no peito do vampiro,
Mas hesitei em fazer – seria autoextermínio?
Temi o rasgar do vazio que viria com a ausência.
Fui fraco e mantive as algemas.

Envergonha-me romantizar recaídas
Tal qual um enfermo em remissão
desistindo da quimio

Quem sabe não se trata de identidade?
Quem sabe faz parte do transtorno?
Será que eu sou essa dualidade?
Será que isso dura pra sempre?

Talvez tornar perceptível, requeira mais atenção
Quem sabe seja lar construído em meio ao caos
Pode sequer tratar-se de persona ou personagem
Mas na segurança de ter pra onde voltar

De um lado o vazio traz um frio ardente
Do meu lado, a propensão à explosão
Não deveria ser difícil escolher
É a daquelas decisões ente viver ou morrer.

Não é falência mental,
É esse abismo no coração.
Hesito em eliminar o vampiro
E me corrói a contradição

Rasguei sua página da minha agenda,
Admito ter escrito uma carta sobre o que vivi,
Nela contava do remorso de escolher sentir,
Ela registrava tudo o que eu não conseguia pedir

Alguns segundos depois, a atirei sobre brasas
Agora as cinzas são palavras nunca ditas.
Discreto orgulho por agir com razão
Nuances amargos de arrependimento
O que causa angústia é sobrar emoção

Essa chegou tão perto:
Um raro impulso evitado.
Mas ansiava saber sua cara
Desde o abrir do envelope
Até o reconhecer das iniciais

Convoquei um duplo duelo
Do lado branco: tédio e desalento,
Do lado escuro: o viver, e o sofrer.

Ainda não sei decidir.
Parece uma simples decisão de tomar,
Mas é dilema para quem habita a fronteira
E sei que vivo me equilibrando na corda

Mantenho a besta em aparelhos,
Significa que o monstro sou eu?
Não sinto empatia, é pura atração
Isso me torna salvador ou vilão?

Se houvesse resposta, me interessaria?
Se houvesse interesse, eu assumiria?

Na indefinição posso viver os vícios e falhas
A identidade, o abrigo e a absolvição dos pecados
Ainda a única vida que conheço,
E o que me endossa sentir.

A repetição me corrói dia após dia
Traz conforto, mas venda meus olhos

Não é sobre quem escreve quando não há hematoma presente
É o desencanto da ruptura de um lugar conhecido.

Eu sou um culto de um homem só
Me visto de líder e seguidor
Sou oferenda e entidade

Quem eu sou sem a criatura?
E quem vai me ensinar a voar?
Quantos são iguais a mim?

E a pergunta que não quer calar:
O que me tornou assim?

(26/02/2026 – 01/03/2026)