DIGA (denovoedenovoedenovo)

Desculpa por te interfonar tão tarde.
Eu quis tanto acertar desta vez,
mas perco as palavras quando vejo você.
Encontrei na tua voz a canção que esqueci
de te escrever.

Mas tu já me conheces tão bem,
que bastam três garrafas vazias
e um impulso vem me dizer como agir.
Eu grito as frases de que já te cansaste de ouvir.
só para me escutar.

Eu devia esquecer meu celular
para não ter chance de te ligar,
nem esperar a notificação chegar,
pois não há mais ninguém pra me impedir
de te esperar.

Os versos que eu nunca acabei,
aquele livro que eu jamais lancei,
a casa à qual não mais voltei,
pois fico esquecido toda vez que me lembro
do que já perdi.

Desculpa o peso que eu criei
e todas as expectativas em vão.
Procuro sempre o equilíbrio ideal,
mas é que nunca aprendi a ser outro alguém
e não sonhar.

“Então diga…”
Diga que tu és a maré viva,
pois também sou maré viva.
Diga que queres te afogar
pra eu poder –
te salvar.

Quando chegar o naufrágio,
Faz do meu coração
tua embarcação.

“Então diga…”
“Então diga…”

(17/09/2025)

Combinação 66

Eu comecei a fazer pra você,
E apaguei não só uma vez,
Mas mais vezes do que lembraria de contar.

Os versos se perderam,
O sentimento ficou:
Distorcido, engasgado, sufocado.
O roxo é hematoma,
O vermelho, cicatriz.
E eu me sinto tão azul.

Jamais ousaria pedir sua alma,
Mas o universo nos conectou:
Vilões, vítimas, artes, leitura
E eu te li muito antes.

Suplico aos céus e aos ventos:
Que me deixe em seu filme,
Nem que seja um figurante.

Te lia em outros rostos,
Em outras fases.
A frase que não era pra você
Também foi pra você – antes de saber.

Sinto falta da fantasia,
Da admiração e da constância.
Sinto medo nunca de ter sido errado,
Mas de ter sido rejeitado,
Repetido, descartado, última opção,
Ou opção alguma.

Seu nome está guardado
Na minha biblioteca de memórias
Com a senha seis e seis.
Sua voz está presente
Sempre que dedilho as cordas do meu violão.

Não era autossabotagem,
Era destino – Só você não entendeu.

Não importam as milhas e milhas de distância,
Ou o coração que te separa do meu.
É certo, está escrito – não nas estrelas,
Na minhas linhas e nas suas.

Não importam os anos e anos de distância,
Ou o medo que se une ao meu.
É certo, será escrito:
O meu nome ao lado do seu

A jaula jamais será prisão se você tem a combinação.
Não quero promessa, não quero cobrança.
Eu não faço sentido, nunca desejei ser lido.

“Não é porque não foi dito, que não foi vivido.
Não foi porque não foi reafirmado que não foi sentido.”

E pra não perder o hábito:
“Só quero que você entenda:
Mesmo se não for pra ser, será.” 

(09/09/2025)

Sala de Espera

No banco de trás,
Na sala de espera,
A bagunça interna
O que dizer hoje ou na próxima?
O que esconder a relevância?

“Como foi a semana?”
Bagunça, caos, desespero,
Sete dias em quarenta minutos
“Até semana que vem”

No banco de trás,
Com a cabeça no travesseiro,
O zumbido grita, as vozes sussurram
Vale a pena anotar?
Melhor tomar um comprimido e dormir.

Amanheceu sem sol
Se eu não usar, adeus concentração.
O que vai me impedir de sentir?
Quem vai fazer isso sumir?
Como vou provar que existo?

No banco de trás,
Deitado no sofá da sala,
TV desligada, estática não para,
O celular não toca,
A notificação nunca chega.

“Abrace o travesseiro, garoto
E finja que ela está do seu lado”

É só mais um impulso que vai passar.
Quando o copo vai transbordar?
Quando vou acreditar que vai passar?

(04/09/2025 – 17:08)

Cartografia do Fracasso

“Bom demais em tudo que faz”
Insuficiente para permanecer
“Se adapta como um camaleão”
Muito desajustado para me encaixar

Esse não é sobre o azul,
Nem sequer sobre o vermelho.
É sobre o preto e o branco,
Do roxo ao cinza – proteção.

Esse não é sobre o azul,
Nem sequer sobre o vermelho.
É sobre a luz que guia os marinheiros
e a escuridão do abismo que encara.

Desculpas, elogios velados,
Vozes na cabeça, facas nas costas.
A verdade despida: nunca foi paranoia.
Melhor deixar na reserva – incentivos vazios.

A única constância está no “eu”,
A maior presença no “outro”.

Sempre cedo demais.
Muitas vezes atrasado.

Fica pra depois,
Deixa pra outra hora,
Até não arder mais.

Chega de pressa,
Não existe futuro.
O passado sempre presente,
O presente eu já nem sei.

10590 dias esperando chegar.
Se não era mentira: onde o plano falhou?

(03/09/2025)