A Gravidade é uma Puta

Ficava claro por alguns segundos
E em seguida, escuridão.

Eu sentia meu corpo se debater
Mas eu não tinha forças pra desfazer
Meus pés não alcançavam o chão
Eu não tinha mais voz pra gritar

Então é assim que termina?
Então esse é o preço que se paga
pelas escolhas que eu fiz?

Deus, me perdoe, pelos meus pecados
Deus, me perdoe, por tudo que fiz
Deus, me perdoe, pelos meus pecados
Deus, me perdoe…

A dormência já possuiu meu corpo cansado
Mas a cacofonia não parou até o último suspiro
Ela se contradizia no final:
Dizia pra desistir – mas o sentido era outro.

Desistir
De desistir

Parece que é tudo que eu faço
Desistir e desistir
Até o último momento.

Quem dera eu soubesse antes
Quem dera alguém pudesse me ouvir

Quem dera eu tivesse pensando a quem chamar
Quem pudesse vir me salvar

Mas tudo que resta agora
São de três a seis minutos pra me arrepender
São de três a seis minutos para rever

Queria que alguém tivesse me falado
Que não é a solução
Em vez de todo silêncio
Em vez da habituação

A gente só enxerga quando a luz nos cega

Não ouvimos
Até que os gritos sejam altos o suficiente
Pra nos fazer parar – e ensurdecer

E não sentimos
Até a vida nos atropelar.

Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?

Quem dera eu soubesse disso momentos atrás.

Será que isso é tudo?
Eu deveria ter pensado nisso
antes de subir.

Mas agora o alívio se tornou arrependimento
Eu não quero mais.
Eu quero viver.

Mas a gravidade faz
o que sempre faz.

O que eu desejei no início
agora eu queria desfazer.

Não, eu não quero!
Eu não quero ter que pagar o preço
Da vista do meio pra baixo.

O preço que se paga do meio pra baixo
É só conseguir entender
Quando já é tarde demais.

Me desculpem por ser sempre assim.

(13/03/2026 – 03:49)

Jesse, Jane and Georgia O’Keeffe

Algumas memórias não mudam.
Mas a forma como voltamos a elas muda.

A referência vem de uma cena de Breaking Bad em que Jane Margolis comenta que, ao observar por muito tempo as pinturas de Georgia O’Keeffe, você começa a perceber coisas diferentes.
Não porque a obra mudou — mas porque quem olha já não é o mesmo.

Por isso a mesma imagem aparece repetida.

É sempre a mesma “pintura”, mas atravessada por estados diferentes: refúgio, conexão, nostalgia, culpa e memória.

Algumas experiências acabam assim.
Elas não passam totalmente.

Só ficam ali, como um quadro no museu, esperando o momento em que alguém — talvez você mesmo — volte para olhar de novo.

I’m low on gas and you need a jacket

Acordei com mais de seis ligações
O voicemail já não tem mais armazenamento
“Onde você foi noite passada?”
“Está tudo bem com você?”

O espelho já não me reconhece mais

E agora divide essa função
Com as janelas
Com as telas
Com os olhos que veem através de mim

Eu me sinto sozinho, e quero estar
Eu me sinto sozinho, e isso é frustrante

Preciso me curar dessa força que me prende aqui
Tenho que me abastecer pra poder te receber
Pra poder conviver

Querida, está tão frio aí fora
E você parece tão sozinha
Queria te entregar meu moletom cor de rosa
Ou te cobrir com aquela minha jaqueta preta

Eu me sinto sozinho, e preciso ficar
Eu me sinto sozinho, e isso não é normal

Preciso me livrar dessa coisa que me mantém assim
Tenho que me arrumar pra poder receber você

“E eu vou logo esquecer da cor dos seus olhos
E você se esquecerá dos meus”

Quanto tempo mais vai ser preciso esperar?

Até quando vou precisar me anestesiar
Só pra não ouvir ressoar
O que sobra de mim
Gritando tão alto
“Pula agora, não há nada depois”

Até quando vou precisar me anestesiar
Só pra ouvir repetir
O que sobra de mim
Sussurrando tão baixo
“Nao vá agora, ainda há muito pra ver”

Quanto tempo vou me enganar?
Ter que ampliar as cores, as formas e os olhos
As ondulações, euforia e inspiração
Só pra não esquecer que continuo por aqui

Eu falo em prosseguir, mas não tento sair do lugar
Eu penso em matar tudo isso que me faz travar

Talvez dessa vez seja diferente.

É muita expectativa?
É muito peso a se colocar?

Se eu sou muito pra outrem suportar
O que resta de mim mesmo?
Com o que me abastecer?

Escolha seu veneno,
Eu escolhi os meus.
Durante toda a minha existência
Eu escolhi os meus.
Então escolhe seu veneno.

“Se eu fosse você, eu colocaria isso de lado
Veja, você está apenas chapada
E pensando sobre o passado novamente
Querida, você ficará bem…

Ela disse:
Se você fosse eu, você faria o mesmo
Porque eu não aguento mais
Vou arrancar as fachadas e fechar a porta
Tudo não está bem
E eu preferiria…”

Eu me escondo das notificações
Deus me livre das ligações e visitas surpresas
Das preocupações
e dos falsos interesses

Quero que os olhos se fechem
os que eu vejo
os que me veem
até os meus.

Misturo esperança no que virá
quando sinto ter vivido mais passado
do que ainda tenho de futuro

“Eu não sei lidar”
“Eu não sei amar”
“Eu não sei ficar só,
E não quero aprender”

Então quem vai me salvar?
porque estou sem gás
e você precisa de uma jaqueta

Não quero estar só quando tudo explodir

Vem desarmar a bomba?
Ou ao menos juntar os pedaços?

Pode ser você,
Mas sinto que só pode ser eu.

Cara ou coroa?

Continuar fingindo,
Ou deixar o sol me queimar?

(13/03/2026 03:07)

A VISTA DO MEIO PRA BAIXO (GRAVE ACIDENTE)

“A autopiedade pesa toneladas, um milhão de quilos por vez.
Pensei que seria mais rápido, mas o tempo parou de passar.”

Só nessa semana
Já ouvi o sussurro mais de mil vezes
Essa cacofonia na minha própria cabeça
Tentando convencer que pular é a única decisão
Pregando que dessa vez não haverá outro jeito

Admiro Bill e Frank
Quando souberam a hora certa de desligar
Conscientes, saciados e satisfeitos

Mas eu já não sinto
que chegarei lá.

Quanto tempo mais vai ser preciso esperar?
Até quando vou precisar me anestesiar
Só pra não ter que pensar?

Quanto tempo vou me enganar?
Ter que ampliar as cores, as formas e os olhos
As ondulações, euforia e inspiração
Só pra não esquecer que continuo por aqui

“Eu queria que alguém pudesse ter feito isso por mim.
Mas agora eu vejo a verdade, enquanto o mundo se apaga.
A vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga.”

Grandezas sempre aguardaram por mim
Mas há tanto tempo que me vejo a esperar
Que eu corro, eu luto, eu penso e finjo
Mas esse corredor me parece infinito

Quase tão perto.
Mas não consigo tocar a maçaneta

Quase tão perto.
Mas não alcanço o outro lado da porta

Não vejo luz no fim do túnel, apenas uma porta que não leva a lugar nenhum
E eu sou incapaz de chegar

“Não sou piloto nem carro
Eu sou um grave acidente
Eu vou acontecer”

Quase tão perto.
Mas sempre longe demais.

Estamos todos sozinhos em salas cheias de fantasmas, esperando por uma ligação que não vai chegar.

Só nessa semana
Já ouvi o sussurro mais de mil vezes
Pregando que tinha que ser hoje
Mas eu teimava e me forçava pra entender:

A gente só enxerga quando a luz nos cega

Não ouvimos
Até que os gritos sejam altos o suficiente
Pra nos fazer parar – e ensurdecer

E não sentimos
Até a vida nos atropelar.

Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?

Eu sinto pavor daquela vista
Da vista do meio pra baixo.
Mas às vezes o que me repulsa também me atrai.

Se a vista do meio pra baixo tanto assusta
Se a vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga

Então por quê o acidente se faz necessário?

(09/03/2026 – 02:19)