A VISTA DO MEIO PRA BAIXO (GRAVE ACIDENTE)

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“A autopiedade pesa toneladas, um milhão de quilos por vez.
Pensei que seria mais rápido, mas o tempo parou de passar.”

Só nessa semana
Já ouvi o sussurro mais de mil vezes
Essa cacofonia na minha própria cabeça
Tentando convencer que pular é a única decisão
Pregando que dessa vez não haverá outro jeito

Admiro Bill e Frank
Quando souberam a hora certa de desligar
Conscientes, saciados e satisfeitos

Mas eu já não sinto
que chegarei lá.

Quanto tempo mais vai ser preciso esperar?
Até quando vou precisar me anestesiar
Só pra não ter que pensar?

Quanto tempo vou me enganar?
Ter que ampliar as cores, as formas e os olhos
As ondulações, euforia e inspiração
Só pra não esquecer que continuo por aqui

“Eu queria que alguém pudesse ter feito isso por mim.
Mas agora eu vejo a verdade, enquanto o mundo se apaga.
A vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga.”

Grandezas sempre aguardaram por mim
Mas há tanto tempo que me vejo a esperar
Que eu corro, eu luto, eu penso e finjo
Mas esse corredor me parece infinito

Quase tão perto.
Mas não consigo tocar a maçaneta

Quase tão perto.
Mas não alcanço o outro lado da porta

Não vejo luz no fim do túnel, apenas uma porta que não leva a lugar nenhum
E eu sou incapaz de chegar

“Não sou piloto nem carro
Eu sou um grave acidente
Eu vou acontecer”

Quase tão perto.
Mas sempre longe demais.

Estamos todos sozinhos em salas cheias de fantasmas, esperando por uma ligação que não vai chegar.

Só nessa semana
Já ouvi o sussurro mais de mil vezes
Pregando que tinha que ser hoje
Mas eu teimava e me forçava pra entender:

A gente só enxerga quando a luz nos cega

Não ouvimos
Até que os gritos sejam altos o suficiente
Pra nos fazer parar – e ensurdecer

E não sentimos
Até a vida nos atropelar.

Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?

Eu sinto pavor daquela vista
Da vista do meio pra baixo.
Mas às vezes o que me repulsa também me atrai.

Se a vista do meio pra baixo tanto assusta
Se a vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga

Então por quê o acidente se faz necessário?

(09/03/2026 – 02:19)

Mais do Mesmo (SAFC)

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Acordei sem noção das horas.
Encarei o espelho, nada reflete.
Sinto que gritei isso tantas outras vezes,
mas não vou conseguir parar de escrever.

Do lampejo que atravessa frestas,
dos ciclos sem contenção,
dos meus impulsos irracionais,
dos episódios eternamente em repeat

Mordo os próprios pulsos
só pra sentir o gosto do sangue.
só pra saber que ainda está lá.

Me recluso no ponto mais alto da torre
antes de as cortinas se abrirem
pra não cruzar o que insiste em me alcançar:
O inevitável desalento – Ennui

Há semanas perdi o meu sono,
E nem vejo as horas passarem.
Meus dias com poucas palavras
Ainda resta tanto pra falar.

Na tatuagem que virou cicatriz,
no abstrato da minha sub-lucidez,
nas confissões das entrelinhas,
na reclusão dos meus próprios aposentos,
talvez até no olhar.

Não tenho lugar neste altar.
Não quero adagas nas mãos.
Não sei a quem salvar.

Não me visto de predador ou presa —
por vezes coincidem.

Não é como se houvesse escolha.

Já era dia quando me deitei.
O alvor fere meus olhos
e traz consigo a má notícia:
Vai começar outra vez.

“Ouvi que se eu não desistir, vai passar
Que se eu não pensar muito, vai sumir
Conforme o tempo passa, vai sarar
Que se eu fechar os olhos, não tá mais aqui.”

As muitas luas me fazem crer
que a razão ofusca essas horas
e não sei como responder
ao retorno da ligação.

Somos um culto de vampiros:
Eu, vocês e todos mais.
Eu aceito a condição:
Podem levar meu sangue.

Eu fiz meus votos
Abdiquei ao inútil esforço de relutar.

Quando já puderes me enxergar sem as máscaras,
e já reconheceres meu vampiro, e o abraçares,
estarei pronto para arriscar novamente.

Perdido na estrada, sem mapa,
Apesar de conhecida.

A casa em desordem não recebe visitas.
Vozes gritam nas madrugadas.

Outro título
para mais do mesmo.

Anseio
pelo gran finale.

(26/02/2026 – 04:58)