
Seis meses do lado de dentro
Me faz mal a luz, mesmo refletida da lua
Senti cheiro de poeira ao me preparar
Precisava me expor, provar o que já vivi
São tantas luzes e cores,
Em um novo endereço,
Mas os mesmos rostos,
As mesmas vozes,
Até as poses,
Parecia meu próprio passado
Uma nova embalagem
Pra um produto vencido
Com defeito de fábrica
Mais um anúncio
Pra um filme repetido
Com roteiro previsível,
Preguiçoso,
Esgotado
Pessoas se aglomeram na multidão,
Mas nem toda maquiagem vai cobrir
A exaustão impressa na face,
O mesmo disfarce no olhar
Mas eu consigo enxergar,
Porque também me sinto um zumbi
Pego mais uma bebida,
Procuro onde me acalmar
Saio e acendo um cigarro,
Não sei se quero ficar
Retorno ao centro do baile,
Observo o mundo rodar,
Enquanto me vejo estático,
Nenhuma emoção pra anotar
Pego mais uma bebida,
Pra evitar conversar
Saio e acendo um cigarro,
Quem tô querendo enganar?
Eis que ocorreu aquele momento
Que foi tão difícil de digerir
Foi uma das vozes antigas
Que me fez enxergar
Tão claramente
No meio de toda bagunça,
Eu me abaixo e pergunto:
“Pra você também é tudo sem graça?
Nada mais tem valor?”
No meio da pista,
Ela só acena que sim
Não é nossa essa valsa,
Perdemos o compasso
E a gente nunca aprendeu a dançar
Então eu volto pro quarto
Pra ficar de vez por aqui
Mas aquelas meias respostas ecoam
Com minha própria voz indagando:
O que te faz acordar?
(25/03/2026)
