Algumas memórias não mudam. Mas a forma como voltamos a elas muda.
A referência vem de uma cena de Breaking Bad em que Jane Margolis comenta que, ao observar por muito tempo as pinturas de Georgia O’Keeffe, você começa a perceber coisas diferentes. Não porque a obra mudou — mas porque quem olha já não é o mesmo.
Por isso a mesma imagem aparece repetida.
É sempre a mesma “pintura”, mas atravessada por estados diferentes: refúgio, conexão, nostalgia, culpa e memória.
Algumas experiências acabam assim. Elas não passam totalmente.
Só ficam ali, como um quadro no museu, esperando o momento em que alguém — talvez você mesmo — volte para olhar de novo.
Acordei com mais de seis ligações O voicemail já não tem mais armazenamento “Onde você foi noite passada?” “Está tudo bem com você?”
O espelho já não me reconhece mais
E agora divide essa função Com as janelas Com as telas Com os olhos que veem através de mim
Eu me sinto sozinho, e quero estar Eu me sinto sozinho, e isso é frustrante
Preciso me curar dessa força que me prende aqui Tenho que me abastecer pra poder te receber Pra poder conviver
Querida, está tão frio aí fora E você parece tão sozinha Queria te entregar meu moletom cor de rosa Ou te cobrir com aquela minha jaqueta preta
Eu me sinto sozinho, e preciso ficar Eu me sinto sozinho, e isso não é normal
Preciso me livrar dessa coisa que me mantém assim Tenho que me arrumar pra poder receber você
“E eu vou logo esquecer da cor dos seus olhos E você se esquecerá dos meus”
Quanto tempo mais vai ser preciso esperar?
Até quando vou precisar me anestesiar Só pra não ouvir ressoar O que sobra de mim Gritando tão alto “Pula agora, não há nada depois”
Até quando vou precisar me anestesiar Só pra ouvir repetir O que sobra de mim Sussurrando tão baixo “Nao vá agora, ainda há muito pra ver”
Quanto tempo vou me enganar? Ter que ampliar as cores, as formas e os olhos As ondulações, euforia e inspiração Só pra não esquecer que continuo por aqui
Eu falo em prosseguir, mas não tento sair do lugar Eu penso em matar tudo isso que me faz travar
Talvez dessa vez seja diferente.
É muita expectativa? É muito peso a se colocar?
Se eu sou muito pra outrem suportar O que resta de mim mesmo? Com o que me abastecer?
Escolha seu veneno, Eu escolhi os meus. Durante toda a minha existência Eu escolhi os meus. Então escolhe seu veneno.
“Se eu fosse você, eu colocaria isso de lado Veja, você está apenas chapada E pensando sobre o passado novamente Querida, você ficará bem…
Ela disse: Se você fosse eu, você faria o mesmo Porque eu não aguento mais Vou arrancar as fachadas e fechar a porta Tudo não está bem E eu preferiria…”
Eu me escondo das notificações Deus me livre das ligações e visitas surpresas Das preocupações e dos falsos interesses
Quero que os olhos se fechem os que eu vejo os que me veem até os meus.
Misturo esperança no que virá quando sinto ter vivido mais passado do que ainda tenho de futuro
“Eu não sei lidar” “Eu não sei amar” “Eu não sei ficar só, E não quero aprender”
Então quem vai me salvar? porque estou sem gás e você precisa de uma jaqueta
Não quero estar só quando tudo explodir
Vem desarmar a bomba? Ou ao menos juntar os pedaços?
“A autopiedade pesa toneladas, um milhão de quilos por vez. Pensei que seria mais rápido, mas o tempo parou de passar.”
Só nessa semana Já ouvi o sussurro mais de mil vezes Essa cacofonia na minha própria cabeça Tentando convencer que pular é a única decisão Pregando que dessa vez não haverá outro jeito
Admiro Bill e Frank Quando souberam a hora certa de desligar Conscientes, saciados e satisfeitos
Mas eu já não sinto que chegarei lá.
Quanto tempo mais vai ser preciso esperar? Até quando vou precisar me anestesiar Só pra não ter que pensar?
Quanto tempo vou me enganar? Ter que ampliar as cores, as formas e os olhos As ondulações, euforia e inspiração Só pra não esquecer que continuo por aqui
“Eu queria que alguém pudesse ter feito isso por mim. Mas agora eu vejo a verdade, enquanto o mundo se apaga. A vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga.”
Grandezas sempre aguardaram por mim Mas há tanto tempo que me vejo a esperar Que eu corro, eu luto, eu penso e finjo Mas esse corredor me parece infinito
Quase tão perto. Mas não consigo tocar a maçaneta
Quase tão perto. Mas não alcanço o outro lado da porta
Não vejo luz no fim do túnel, apenas uma porta que não leva a lugar nenhum E eu sou incapaz de chegar
“Não sou piloto nem carro Eu sou um grave acidente Eu vou acontecer”
Quase tão perto. Mas sempre longe demais.
Estamos todos sozinhos em salas cheias de fantasmas, esperando por uma ligação que não vai chegar.
Só nessa semana Já ouvi o sussurro mais de mil vezes Pregando que tinha que ser hoje Mas eu teimava e me forçava pra entender:
A gente só enxerga quando a luz nos cega
Não ouvimos Até que os gritos sejam altos o suficiente Pra nos fazer parar – e ensurdecer
E não sentimos Até a vida nos atropelar.
Por quê diabos o acidente é requisito obrigatório?
Eu sinto pavor daquela vista Da vista do meio pra baixo. Mas às vezes o que me repulsa também me atrai.
Se a vista do meio pra baixo tanto assusta Se a vista do meio pra baixo é o preço que a gente paga
Tentei cravar a estaca no peito do vampiro, Mas hesitei em fazer – seria autoextermínio? Temi o rasgar do vazio que viria com a ausência. Fui fraco e mantive as algemas.
Envergonha-me romantizar recaídas Tal qual um enfermo em remissão desistindo da quimio
Quem sabe não se trata de identidade? Quem sabe faz parte do transtorno? Será que eu sou essa dualidade? Será que isso dura pra sempre?
Talvez tornar perceptível, requeira mais atenção Quem sabe seja lar construído em meio ao caos Pode sequer tratar-se de persona ou personagem Mas na segurança de ter pra onde voltar
De um lado o vazio traz um frio ardente Do meu lado, a propensão à explosão Não deveria ser difícil escolher É a daquelas decisões ente viver ou morrer.
Não é falência mental, É esse abismo no coração. Hesito em eliminar o vampiro E me corrói a contradição
Rasguei sua página da minha agenda, Admito ter escrito uma carta sobre o que vivi, Nela contava do remorso de escolher sentir, Ela registrava tudo o que eu não conseguia pedir
Alguns segundos depois, a atirei sobre brasas Agora as cinzas são palavras nunca ditas. Discreto orgulho por agir com razão Nuances amargos de arrependimento O que causa angústia é sobrar emoção
Essa chegou tão perto: Um raro impulso evitado. Mas ansiava saber sua cara Desde o abrir do envelope Até o reconhecer das iniciais
Convoquei um duplo duelo Do lado branco: tédio e desalento, Do lado escuro: o viver, e o sofrer.
Ainda não sei decidir. Parece uma simples decisão de tomar, Mas é dilema para quem habita a fronteira E sei que vivo me equilibrando na corda
Mantenho a besta em aparelhos, Significa que o monstro sou eu? Não sinto empatia, é pura atração Isso me torna salvador ou vilão?
Se houvesse resposta, me interessaria? Se houvesse interesse, eu assumiria?
Na indefinição posso viver os vícios e falhas A identidade, o abrigo e a absolvição dos pecados Ainda a única vida que conheço, E o que me endossa sentir.
A repetição me corrói dia após dia Traz conforto, mas venda meus olhos
Não é sobre quem escreve quando não há hematoma presente É o desencanto da ruptura de um lugar conhecido.
Eu sou um culto de um homem só Me visto de líder e seguidor Sou oferenda e entidade
Quem eu sou sem a criatura? E quem vai me ensinar a voar? Quantos são iguais a mim?
E a pergunta que não quer calar: O que me tornou assim?
Acordei sem noção das horas. Encarei o espelho, nada reflete. Sinto que gritei isso tantas outras vezes, mas não vou conseguir parar de escrever.
Do lampejo que atravessa frestas, dos ciclos sem contenção, dos meus impulsos irracionais, dos episódios eternamente em repeat
Mordo os próprios pulsos só pra sentir o gosto do sangue. só pra saber que ainda está lá.
Me recluso no ponto mais alto da torre antes de as cortinas se abrirem pra não cruzar o que insiste em me alcançar: O inevitável desalento – Ennui
Há semanas perdi o meu sono, E nem vejo as horas passarem. Meus dias com poucas palavras Ainda resta tanto pra falar.
Na tatuagem que virou cicatriz, no abstrato da minha sub-lucidez, nas confissões das entrelinhas, na reclusão dos meus próprios aposentos, talvez até no olhar.
Não tenho lugar neste altar. Não quero adagas nas mãos. Não sei a quem salvar.
Não me visto de predador ou presa — por vezes coincidem.
Não é como se houvesse escolha.
Já era dia quando me deitei. O alvor fere meus olhos e traz consigo a má notícia: Vai começar outra vez.
“Ouvi que se eu não desistir, vai passar Que se eu não pensar muito, vai sumir Conforme o tempo passa, vai sarar Que se eu fechar os olhos, não tá mais aqui.”
As muitas luas me fazem crer que a razão ofusca essas horas e não sei como responder ao retorno da ligação.
Somos um culto de vampiros: Eu, vocês e todos mais. Eu aceito a condição: Podem levar meu sangue.
Eu fiz meus votos Abdiquei ao inútil esforço de relutar.
Quando já puderes me enxergar sem as máscaras, e já reconheceres meu vampiro, e o abraçares, estarei pronto para arriscar novamente.
Perdido na estrada, sem mapa, Apesar de conhecida.
A casa em desordem não recebe visitas. Vozes gritam nas madrugadas.
Ouço nova canção em frequência idêntica. Daqui um par de anos seria uma década. Parece naturalizado esforço pra não lembrar. Toda surpresa é ambígua e me causa repulsa, Mas às vezes o que me repulsa também me atrai.
Até parece uma fidedigna cópia de outrora, naquela simbólica chama cor-de-rosa, Mesmo vivendo sempre escondido no silêncio, Ainda que tenha esquecido que podia lembrar.
Serão esses faróis a ilusão do exagerado, o encontro da direção em outro endereço, ou segundo resgate do quase-conhecido?
Serão esses faróis a perdição do emocionado, a progressão da cegueira pós tolerância de paliativos, ou a ironia da oportunidade de reviver o acidente?
Reviver todo estrago causado? Teria eu me despedido ou em estado de coma? Logo eu que prometi parar de repetir canções, que decidi cortar o cabelo, trocar até o preto, fui descoberto vampiro em disfarce outra vez.
Com hipnose e um pouco de ternura Até parece que vai voltar agora, Depois da chama cor-de-rosa Irei me expor à vontade que tanto assustava Agora que não há razões para não lembrar
Um início diferente dos outros todos: padrões, comuns, comportamentos modulares. Assemelha tanto ao que só eu ainda recordo. Ao que só existe quando me falta lucidez.
Fui e serei vampiro no crepúsculo, sem menção a qualquer filme São várias notificações saltando como se não quisesse fazer o jogo de sempre Ressaltando olhar tão reluzente e cabelos igualmente dourados
O camafeu tatuado, em lugar diferente, é fato, Mas as palavras são quase tão idênticas Quando se utiliza do jeito de frasear que eu até decorei
O padrão se repete? Como decidir, se é um misto de receio com sonho? A repulsa do trauma, ou a atração do desejo?
Se já puderes me enxergar sem as máscaras, e já reconheceres meu vampiro, e o abraçares, estarei pronto para arriscar novamente.
Queria eu, hoje, contemplar tua expressão Ao perceber que era sobre questionar a lucidez. Sinto muito ser o mensageiro: nunca foi sobre amor.
Eu escrevi sobre mim — Jamais, e nunca mais, sobre nós. O ego afetou teu julgamento, moça? No que te transformou?
Bloqueia-me do teu ciclo social, Mas não sejas a última a saber: Apagar da memória é enredo de filme, Mas eu não sou ator, e você não é roteirista.
Então finja por mais uma noite, Deite-se na cama e se engane mais. Feche os olhos e se esforce pra que eu suma. “Não tente me esquecer, porque eu não vou deixar.”
Essa será minha última referência Ao nome que escolhi nem mencionar. Mas deixo a mensagem, princesa: A última vez. Meu relógio não marca mais 11:48.
Mas não se preocupe — Teu nome não vai estar vinculado ao meu. Tua imagem permanecerá inabalável, Exceto pela que você deixou no fim.
Corto minha pele com a navalha E escrevo, em sangue e cicatriz, A expressão “nunca mais” — Que é pra me lembrar de esquecer.
Me dá um espacinho na sua agenda. Lembra que eu existo além do lençol. Faz de mim parte real da sua vida. Para de me esconder dos seus amigos.
“Eu bebi saudade a semana inteira pra domingo você me dizer que não sabe o que quer e não quer mais saber.”
Me fez te querer, me fez esperar. Cultivou minha expectativa como sua. Abriu o envelope e não leu o telegrama. Ainda diz que sou melhor, mas não assume (bem baixinho, pra ninguém ouvir).
Outra vez, depois de tudo — ou quando não sobrar nada de melhor — quem sabe tire um tempo pra mim? “Esse fim de semana não dá.”
E eu espero, eu acredito, eu vivo em cores, em cheiros, em fantasia. Eu ouço suas palavras escritas e sinto a sua pele na minha.
Quem sabe no fim do mês, se não desistir até lá, se não encontrar algo melhor, ou antes da dissociação passar?
Você quer meu corpo junto ao seu, gosta de me ouvir dizer o que ninguém diz, me liga de madrugada pra contar da saudade, mas só permanece até o alarme tocar.
Vai expor meu nome ao lado do seu? Vai deixar de pensar tanto e fazer? Os áudios embriagada vão traduzir a verdade, ou apenas a carência da minha atenção?
Será que esse dia vai chegar — se não desistir até lá, se não encontrar outro lar, ou até a ilusão acabar?
Você grita o nome dele quando vomita borboletas? O coração dele também tem seu nome tatuado à mão? Você se pergunta se ainda vai encontrar alguém como eu? Quantas vezes seu coração disparou nos últimos dez anos?
Ainda é meu jeito obcecado que te deixa à vontade? Não importa no que insista em se convencer, eu ainda sou quem tira o seu sono nessas noites, nos fins de semana olhando as estrelas no teto, ouvindo os carros passarem, esperando o telefone tocar. A anestesia acabou — deixa o pensamento te buscar.
Você sussurra o meu nome quando está com ele? Eu fui o melhor que você já teve? Ainda ouve minha playlist quando acorda? Falta tanto assim pra você entender?
Quando as luzes se apagarem e o amor bater à porta, qual será o primeiro nome que irá chamar? De quem vai ser esse espaço ao teu lado, que você jamais deixou de guardar?
E sim, meu bem, eu sei.
“I know that we’re taking chances You told me life was a risk I just have one last question Will it be my heart Or will it be his?”
Não tenha medo: abra as janelas pro sol entrar. Deixa de segredo — me diga o que tem pra falar. Não importa o tempo, mas não pare pra pensar. Tira a poeira da sala e me convida pra te visitar.